Troche: “Desenho para saber quem sou”

Troche-espaço

Por Silvia Ribeiro

Em 22 de setembro, recebi em minha casa no Rio o cartunista argentino Gervasio Troche. Venho há alguns meses investigando o processo de criação na arte e não pude deixar de entrevistá-lo sobre o tema. Ao falar sobre o modo como surgem os desenhos, Troche revela-se a si.

Sem autocensuras, o desenhista de 37 anos topou a proposta e tirou o véu de sua criação: contou por que desenha, como lhe ocorrem as ideias, como e onde se inspira, por que elegeu “aquarelas em branco e preto”, as escolhas dos temas e a trilha sonora na hora de desenhar.

Define-se como nostálgico e desordenado, apesar de a poesia e a delicadeza de seus traços brotarem de linhas simples, muitas vezes, objetivas quanto ao alvo da mensagem que busca alcançar.

Também relatou que se deu conta que passava por certo “desequilíbrio” ao ver surgir de seu caderno a série de personagens equilibristas e explicou a escolha de um de seus temas mais ricos: o espaço.

“Quando me concentro no universo, vou a ele, mas vou para dentro de mim.”

Com apoio de fãs que financiaram sua viagem ao Brasil, Troche faz até 4 de outubro um giro por cidades brasileiras para lançar “Desenhos Invisíveis”, da Lote 42. Para a entrevista a seguir, contei com a preciosa ajuda de Cecilia Arbolave, sócia-editora da Lote 42, a quem recorri para traduções a fim de melhor me fazer entender.

Inverso: Quem é você?
Troche: O nome? [risos] Bem, não sei. Gervásio Troche. Psicológico isso… Uma pessoa muito desordenada, complexa. Creio que sou muito sensível.

Inverso: Você se diz desordenado, mas os seus desenhos são muito “clean”…
Troche: Porque busco isso, busco pureza. O desenho para mim é um lugar onde encontrei paz interior, um mundo belo.

Inverso: Os desenhos podem ser encarados como uma fuga?
Troche: É uma busca de mim mesmo, como pessoa, busca por tratar de saber quem sou. Não sei quem sou realmente… Me custa muito, baixa autoestima… Não sei se é uma fuga porque eu amo a vida, tenho paixão pela vida, pelas pessoas. Gosto de mudar a realidade, a realidade é um bom motivo para a mudar. Fui uma criança complicada e, por meio do desenho, quis dizer ao mundo o que estava aqui dentro…

Inverso: É uma forma de ser…
Troche: De me comunicar com as pessoas.

Inverso: Por que a escolha pelo desenho e não por outras formas de arte?
Troche: Porque me encontrei no desenho. Toco guitarra, às vezes, mas não me encontro na guitarra. Minha linguagem é o desenho, minha forma de falar é essa. A música me alimenta na hora de desenhar. Aqui há música também, há música e outras formas de arte.

Inverso: O que são Desenho Invisíveis?
Troche: O conceito nasceu em uma conversa com um desenhista argentino, o Kioskerman, e eu estava buscando um título para o livro — eu queria que o livro não tivesse título. Mas a editora argentina me disse que tinha de ter… [risos] Há uma frase conhecida, batida, que diz: “O essencial é invisível aos olhos”. Na realidade, os desenhos são invisíveis, o que o desenho diz não se vê no desenho.

Inverso: São como as palavras, feitas de significantes e significados. O conceito da palavra não é a palavra. Se você pudesse escolher um desenho invisível, qual seria?
Troche: Esse é um tema afetivo [Troche mostra o desenho que abre o post]. Foi numa época em que eu não tinha blog e não sabia o que fazer da minha vida em relação aos desenhos… Me veio essa imagem: alguém buscando algo na escuridão e a luz são as estrelas. Me ajudou muito a tirar esse bloqueio.

Inverso: É possível ganhar dinheiro com os desenhos? Pergunto para entender como você equilibra a sua criação e a necessidade de pagar as contas.
Troche: Eu não faço dinheiro com desenhos. Dou oficinas de desenho, ensino. É algo parecido com o que gosto de fazer, que é desenhar, mas não é desenhar. Eu gostaria de viver de desenhar, mas como não posso, comecei a formar oficinas para ensinar. De desenho em si, às vezes vendo originais, mas é muito esporádico. É muito difícil viver de desenhos.

Inverso: O blog tem patrocínio?
Troche: Não.

Inverso: Poderia ser uma saída desde que não te pusesse amarras…
Troche: Há vantagens em não se viver economicamente de desenho. Eu gostaria de viver dos meus desenhos, mas prefiro não ganhar dinheiro do que ganhar fazendo algo que não gosto de desenhar. Já trabalhei fazendo grafites e logos para empresas. Não gostei. Fiz um trabalho para a American Express, eu estava mal de trabalho… É muito difícil. Tinha que comunicar uma mensagem muito empresarial, que eu não sentia, que não acreditava.

Inverso: Tem que crer para fazer arte.
Troche: No meu caso sim, crer ou sentir. Meus desenhos são muito esporádios. Talvez como no teatro, algo improvisado, do gesto nasce o sentimento. Custa muito racionalizar.

Inverso: De onde nasce o improviso?
Troche: Para mim, é como brincar. Uma criança, quando desenha, não pensa, brinca. Quando você brinca, a emoção e o sentimento estarão no desenho. Não tem que buscá-los. Quando se diz: “Estou triste, então tenho de que fazer algo triste”. Não. Se está racionalizando. [Improvisar] É não reprimir-se, a mim também me custa. Me custa improvisar, brincar. É quanto mais passa o tempo, se torna mais difícil, porque há mais preconceitos, mais um montão de coisas. Mas é como se deixar levar pela emoção, ódio, angústia, intensa alegria… É como dizer a alguém o que se sente por essa pessoa: se pode dizer racionalizando e se pode dizer realmente. Sempre há um pouco de racionalização [no trabalho], porque somos racionais e tudo passa pela razão, mas se faz necessário não reprimir sentimentos.

troche-estrela

Inverso: Em um dos seus desenhos, há um homem embrigado sobre uma estrela. Neste caso, o que surgiu antes: o desenho ou a ideia? Ou os dois nascem juntos?
Troche: Nascem juntos. No entanto, às vezes, nasce primeiro a ideia, mas quando ela surge na mente, vem como o desenho. Esse desenho da estrela, eu vi uma estrela e vi que a estrela poderia ser uma mesa e imaginei um homem bêbado ou um homem bebendo nessa mesa, mas ele podia estar tomando um café ou jogando. No entanto, o fiz bêbado porque nesse momento acessei imagens do meu pai em momentos de embriaguez. E logo agreguei um banco comprido. É como uma colagem de conceitos que formam uma ideia, mas começam com conceitos. Sempre. Às vezes, de um ponto fixo, uma estrela, começam a aparecer personagens no cenário, a mente começa a se mover de alguma forma… [risos] Primeiro aparecem com conceitos, mas a ideia não aparece escrita na minha cabeça, aparece o desenho, a cena, o ator na cena. Depois desenho. Eu não gosto quando o desenho não se parece com o desenho que está na minha mente.

Inverso: O que te inspira? Como surgem as ideias para os desenhos?
Troche: A todo tempo estou pensando nisto. Não tenho um escritório, não tenho horário [de trabalho]. Sou um pouco desordenado… Gosto muito de sair para caminhar e ver o movimento, a vida, os sons, tudo isso me inspira. A noite me inspira, a música, a chuva… Há temas dos quais gosto muito e sempre volto a esses cenários, à noite, à chuva, aos equilibristas e, por alguma razão, sempre me veem ideias. Quando eu era criança, gostava da noite e da chuva… A inspiração vem de muita busca. Não sou alguém que fica sentado num lugar fechado olhando a folha em branco. Ouço música, me emociono, a emoção é muito importante. Quando estava no avião vindo para o Brasil, me vieram muitas ideias por causa da emoção. Acho que os artistas têm de ter vivências nas ruas. Também nos livros e em outras obras de arte, mas para mim a inspiração está na rua.

Inverso: Você diz que a noite é um cenário a que você sempre recorre e que, quando criança, gostava da noite. A arte é uma forma de reviver a infância?
Troche: Sou muito nostálgico, gostaria de não ser, mas não posso… E a nostalgia de infância: o que aconteceu, por que aconteceu, por que não surgem imagens claras na minha mente, por que não posso reviver, por que não posso viajar mentalmente a esse lugar de volta e vivê-lo? Sempre estou pensando nisso da infância e desenho sobre isso. Me sinto um menino nesse sentido. Mas, quando era um menino e desenhava, não pensava assim, brincava e me divertia, não tinha essa nostalgia. Não me sinto um menino quando desenho, me sinto um adulto e gosto disso. Às vezes, quando ouço que os artistas desenham como quando eram crianças, acho muito estranho porque para mim é lindo desenhar como somos agora. Quando eu era criança tinha mais liberdade, agora me custa um pouco mais. Encontro liberdade, mas uma liberdade desse momento da minha vida, de adulto. Quando era criança, era livre, mas não buscava a liberdade, já a tinha. Hoje quando tenho de buscá-la, a encontro, mas é uma liberdade de adulto.

Inverso: Por que desenha em branco e preto?
Troche: Tenho influências de desenhistas de quem gosto muito que desenham em branco e preto. Mas é uma questão de gosto, como a roupa, há quem se vista com muitas cores… Eu gosto do branco e preto em tudo, na fotografia, no cinema. Acho que é como entendo o mundo, não como o vejo, é como um filtro que passa na minha mente, por aí acontece tudo em branco e preto. Acho que a nostalgia é branca e preta. Na realidade, desenho em branco e preto com água, como aquarela, o que é diferente de branco e preto de autocontraste. Há cinzas também. Gosto da atmosfera do branco e preto e dos cinzas.

Inverso: A música também está muito presente nos desenhos.
Troche: Os artistas que mais me influenciaram foram Miles Davis (o disco “Kind of Blue”), o pianista de jazz Bill Evans, Radiohead (“Ok Computer”, “Kid A” e “Amnesiac”), Bob Dylan (“Blonde on Blonde” e todos os discos da década de 60), Beatles, Pink Floyd, Nirvana que é minha adolescência, R.E.M, do Caetano eu gosto muito do “Transa”.

Inverso: Os desenhos dos equilibristas me tocaram bastante, porque é um desafio diário se equilibrar ante a realidade…
Troche: Eu não me dava conta que estava buscando equilíbrio ou que estava em desequilíbrio. Me chamou a atenção desenhar alguém em uma linha. No desenho, não é uma corda, é uma linha. Queria brincar com uma linha, com um personagem em uma linha, mas não fiz isso por (eventualmente) estar desequilibrado. Eu achava divertido desenhar um personagem em uma linha e comecei a fazer muitas coisas. Depois, vendo o resultado, me dei conta que foi muito divertido, mas que eu não estava bem, me dei conta de que estava em desequilíbrio.

Inverso: Quando você fala em linha, há uma questão de metalinguagem do desenho e, ao mesmo tempo, a metáfora de busca de equilíbrio…
Troche: Sim. Uma linha pode significar muitas coisas, um varal com roupas penduradas, pode haver pássaros, um horizonte, um corte… A linha me chama muito a atenção. Faço a linha e trato de fazer pessoas sobre a linha. Sempre tem uma relação com a linha e com o equilíbrio. Tem um pouco de influência de Alexander Calder, com arames. Ele usou arames como linhas.

Inverso: O espaço e as estrelas também são temas centrais. O que representam?
Troche:
O mistério. O mistério do universo. O espaço é infinito e muito largo. O infinito me atrai
desde criança. Quando me concentro no universo, vou a ele, mas vou para dentro de mim. Esse infinito pode ser o infinito que está dentro de mim também. Como um reflexo de mim, de ti e de todos.

Troche-Equilibristas

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Como se sente a mãe de uma mulher

É claro que isso já me aconteceu muitas vezes. Incontáveis vezes. Eu é que nunca reparei em como vivi me esquivando há tantos anos. Agora que tenho uma filha, terei que ensiná-la a se esquivar também? Ou devo ensiná-la a tirar a roupa na praça em protesto e aceitar sem suspiros de impaciência quando fizerem uma oferta por ela? Bem, eu estava vestida e muitas vezes fizeram uma oferta por mim. Eu havia me esquecido até topar com a clareza da Claudia Regina descrevendo como se sente uma mulher.

É claro também que eu me senti constrangida muitas vezes. Sobretudo ao ouvir que eu deveria rezar mais ou que talvez o meu padrão de pensamento e energia é que atraíam esse tipo de situação. A culpa era minha então. E provavelmente da roupa que eu usava. E do jeito como eu olhava, do sorriso ou da educação. Da atenção, da profissão. Havia sempre uma teoria sobre o meu descuido ou equívoco.

Mas ninguém sabia me explicar exatamente porquê isso acontecia. Afinal, foi debaixo de um jaleco que ia do pescoço às panturrilhas que recebi a primeira oferta direta, em números. Uma mesada generosa, um apartamento, carro, despesas pagas para ser acompanhante exclusiva. O mundo adulto inaugurou a nova modalidade. Além de olhares perscrutadores ou exaltações anônimas aos meus órgãos femininos pela rua, uma oferta direta à qual eu poderia, finalmente, responder diretamente: “não, obrigada”. Foi a única vez em que eu seria capaz de socar o peito de um senhor de 84 anos que, inseguro da negativa, resolveu, pelo sim pelo não, tocar o meu seio.

No metrô é coisa comum. É um que confunde meu quadril com a estrutura metálica, outro que simula um empurra-empurra que não existe. No ônibus, menina, eu olhava o movimento quando notei um carro insistentemente emparelhando. Demorei para entender, chocada, que o motorista dividia sua atenção entre o volante e o que se podia ver de mim pela janela, enquanto manuseava seu órgão genital. Coisa parecida também quando eu falava ao telefone estirada na cadeira da varanda e reparei um homem seminu manipulando o falo no apartamento do prédio da frente.

Uma vez grávida, achei que o assédio diminuiria. Mas não. A barriga já grande e não fui poupada de ouvir o que uns e outros gostariam de fazer sexualmente com uma mulher grávida. Eu lembrando aqui, enquanto escrevo, sinto nojo. Mas na hora não senti, porque não prestei atenção ao conteúdo do que me diziam. Apenas desviei, mudei de calçada, cheguei mais pra lá, apertei o passo, entrei em uma loja sem querer, olhei para o outro lado, puxei assunto subitamente com alguém próximo e abandonei o fato em seguida.

Mas pior, muito pior do que como se sente uma mulher, é sentir o que sente a mãe de uma menina sabendo o que a filha encontrará pela frente. E eu vou ensinar o quê? O quê é essa resistência? Como se resiste à violência? Pacificamente, como Gandhi, aceitando o abuso e encontrando rotas alternativas menos piores, oferecendo flores a quem lhe oferecer dinheiro? Distribuindo socos? Procurando a polícia a cada episódio? Fazendo passeata toda a semana?

A filha é minha e eu deixo ela usar o blush quando e como ela quiser

A filha é minha e eu a deixo usar o blush quando e como ela quiser

É essa resistência feminina que eu não sei nominar, é quase uma teimosia a de insistir na feminilidade ou se masculinizar. Eu não sei. Qualquer coisa me parece um ato de coragem. Inclusive ceder e se vender. É preciso coragem de qualquer maneira para quem nasce sob o signo da fenda. É a fome, a gana de amar, de receber entre as pernas um homem, de parir, de alimentar. Essa força indescritível, essa vontade de viver. É provavelmente isso o que eu jamais poderia ensinar o que fará a minha filha resistir. A vontade de ser o que ela já nasceu sendo: uma pessoa.

Camila Caringe é muito mãe, bastante jornalista e consideravelmente afeita a queijo gouda, na respectiva ordem de importância.

Se velório, não agite

É uma situação peculiar. Pessoas morrem todos os dias, mas não da sua família. Então, a ocasião é mesmo um caso a ser desvendado. E em grupo. Parentes chegam de todos os lugares. Muitos, inclusive, descobrem seu parentesco ali mesmo e aproveitam para rascunhar a árvore genealógica atrás do ticket do estacionamento:

__ Olha, Evandro, esse aqui é o Nivaldo, esposo da Armênia, filha do Gerônimo e da Claudete, lembra da Claudete?, tia da Anastácia e da Carmela, a que teve o Reginaldo depois que se separou do Moacir e se casou com…

__ …Tá. Começa de novo que agora eu vou anotando aqui. Nivaldo… esposo-Armênia-filha-Gerônimo-Claudete-que… Ah! Não foi a Claudete do Cícero?, que traiu o tio quando… nossa!, eu me lembro… foi um escândalo…

Lembranças. O importante é ter recordações, mesmo que só de fatos que não se conectem com rostos.

__ Sinto muito…
__ Oi… eu também sinto muito…
__ …
__ Quem é esse mesmo que a gente cumprimentou agora?
__ O filho do morto.
__ Ahn…

Mas meus personagens favoritos são os francos, os que riem deslavadamente, aproveitam a oportunidade para um encontro informal e uma roda de conversa descontraída ao lado do caixão. Comentam a novela, contam aquela do papagaio, falam do cachorro que, espertíssimo, corre pra cozinha ao apito do microondas, a vida conjugal da vizinha, algum problema de saúde que eventualmente lembre o estado do recém-falecido e outras especulações felizes sobre a grande graça de estar ali.

Grávidas, então, viram o centro das atenções. Celebrações efusivas à nova vida contagiam o ambiente e merecem as flores das coroas e as velas pelo anjinho que virá. Alguém, mais emotivo, quebra o clima de confraternização com um choro copioso, inconveniente.

__ Nossa, gente. Quem é esse, fazendo esse escândalo todo?
__ O filho do morto. Já falei!
__ Ah, é! Tinha esquecido!

Os mais revoltosos procuram culpados. A viúva é sempre a primeira suspeita e não demora para começar a coçar a orelha esquerda. Seja como for, o mistério precisa ser esclarecido, na esperança de que o quadro seja revertido e o defunto se levante. Um pequeno e seleto grupo, mais consciencioso, se dedica a examinar os papéis, usando a tampa do caixão para separar os documentos e avaliar com acuidade:

__ Deixa eu te mostrar o atestado de óbito. Olha aqui. “Causa mortis: infecção generalizada”.
__ Mas foi feita autópsia?
__ Sim, sim. Ele morreu no hospital, mas fizeram. Até demoraram para avisar. Olha. Duas da manhã. Mas só ligaram às 9h. Deve ser por isso.
__ Mas a infecção por causa da perna, ainda?
__ Deve ter sido quando ele tirou a prótese.
__ E se não foi?
__ Deve ter sido.
__ Foi depois da queda.
__ É. Foi depois da queda.
__ Então foi a queda! Essa queda aí tá mal explicada… E se ele foi empurrado?
__ É… é fácil empurrar uma pessoa de noventa anos…
__ E a viúva é mais nova, não é?
__ Sim! 89 só!
__ Tá vendo? Tem mais vigor. Será que não foi ela?

Mas pra quebrar o gelo da névoa fúnebre, nada como as crianças…

Crianças transformam qualquer velório em festa. Correm, gritam, mostram o que aprenderam na escolinha, falam sobre suas expectativas para o Natal e, no caso de tédio, entram por uma porta e saem por outra freneticamente, animando toda a galera num pique-esconde heterogêneo, que conta inclusive com a participação de atores dos eventos paralelos.

__ Ahn? Quem tá aqui? Meu irmão que morreu e… O quê? A criança? Ah… Acho que ela correu ali pra fora, na direção da avenida e…

Um velório é sempre um reencontro marcante. Não precisa de nenhum extra, DJ ou lembrancinhas. Ele clean já é demasiado.

Pó de 10

O homem barrigudo, chinelo de dedo, bigode preto, percebeu meu interesse pelo cão e ficou me encarando. Ele apoiava as mãos no guidão de uma bicicleta, com um riso malicioso.

Eu que tirava fotos do bicho.

Animal de cor esquisita, olhos de cabra injetados, pelo manchado, batido, aspecto descarnado.

Estava na Pedra do Sal, próximo ao Cais do Valongo, região portuária do Rio, que, há pouco mais de 100 anos, fora porta de entrada de mais de 500 mil africanos.

— Esse cachorro é seu? Como chama?

— Pó de 10.

— Pode 10? Pode o que?

— Não. Pó de 10 mesmo.

— Pó de cocaína?

— É… – e ficou me espiando, como se eu desafiasse a verdade e fosse perder.

— Mas por que ele se chama Pó de 10?

— O dono dele chamava ele assim. Ele era traficante, tá trancado faz pouco mais de um
mês… O cachorro ficou.

— O senhor tá brincando comigo…

— ÔÔÔÔ PÓ DE DEEEEEZ!!!!

E o cachorro desembestou a correr na direção de tão singela convocatória.

Gosto de a realidade não carecer de elementos verossímeis. Ela se banca e esfrega na cara o que seria facilmente taxado de mera invencionice. Já a ficção, essa sim, precisa acercar-se de mais “cacos do real” do que a própria realidade.

Só um racismozinho sem querer

Da primeira vez em que assisti ao filme, já gostei. Depois, considerei: “mas será que não estamos sendo ambas muito radicais? Essa terapia de choque… não sei…” Ainda assim, não consegui retroceder. Na condução, Jane parecia um pouco sádica. Mas na intenção não.

O último episódio envolvendo atitudes racistas no futebol brasileiro me fizeram lembrar da conversa ligeira que tive com ela por e-mail, há algumas semanas. Jane Elliot, uma professora de Riceville, Iowa, nordeste dos Estados Unidos, conduziu uma experiência muito realista, forçando empatia entre seus alunos de nove anos de idade, desfavorecendo-os alternadamente por suas características físicas, simulando posturas racistas, homofóbicas ou discriminatórias típicas da sociedade estadunidense.

O filme a que me refiro se chama Blue Eyed, mas existem muitos registros sobre as palestras que ela ainda ministra nos dias de hoje, utilizando sempre o mesmo método de empatia radical que utilizou pela primeira vez em 1968, em ocasião do assassinato de Martin Luther King. “Eu dava aula na terceira série em uma comunidade branca cristã. Tinha de explicar a morte dele para os meus alunos. Não sabia como fazê-lo, a não ser fazendo com que se sentissem na pele de um negro por um dia.”

Quando a notícia sobre o exercício Blue Eyes/Brown Eyes se espalhou, Jane e sua família passaram a receber represálias diversas. “Meus filhos apanharam e receberam cusparadas. Meus pais perderam seu negócio. Meu pai morreu totalmente isolado na comunidade que seu bisavô ajudou a fundar, porque havia criado a amante de negros da cidade.”

Mas… o exercício foi criado em 1968, três anos após a queda do apartheid legal nos EUA. Agora talvez pareça um pouco deslocado. Quero dizer, o país elegeu um presidente negro. Correto, Jane? “A eleição do nosso primeiro presidente negro poderia ter inaugurado uma era de igualdade e justiça. Em vez disso, ela deu início a anos de resistência por parte de pessoas brancas sobre a ideia de que um negro poderia, seria ou deveria estar em uma posição de tal autoridade. Obama foi eleito não porque a população branca ficou impressionada com sua inteligência e filosofia, mas porque ele foi um organizador comunitário absolutamente brilhante.”

Bem, eu nasci brasileira. E posso dizer que aqui, no País do Futebol, onde 52,3% da população se declara parda ou negra, de acordo com o último Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2010, IBGE), ainda acontece de, “no calor do jogo, no impulso”, uma funcionaria da Brigada Militar de Porto Alegre disparar ofensas racistas contra um jogador do time adversário. Mas isso foi semana passada. Já faz tempo. Vamos pegar um fato mais recente. Esta semana o galpão do Centro de Tradições Gaúchas (CTG) Sentinelas do Planalto foi atingido por um incêndio criminoso. O motivo? Uma cerimônia de casamento coletivo incluindo um casal homossexual.

Jane Elliot começou o seu trabalho depois de ler Mengele e The Nazi Doctors, dois livros que detalham a filosofia e o trabalho de líderes fascistas. “Já aconteceu uma vez e pode acontecer de novo, a não ser que as pessoas leiam essas coisas e percebam que ele (Mengele) não era um monstro. Era um homem fazendo o que achava certo e que tinha o poder para fazê-lo. The Nazi Doctors fala sobre como pessoas inteligentes foram convencidas a cooperar. O mais assustador é saber que foi, na verdade, fácil fazê-los cooperar. A intimidação funciona.”

O professor Rainer Wenger, de Palo Alto, Califórnia, confirmou que isso é possível em 1967. Sua experiência foi adaptada pelo cinema alemão no filme intitulado A Onda (Die Welle, 2008). O envolvimento dos estudantes com o movimento autocrático forjado pelo professor foi tão profundo que a experiência teve sérias consequências. Um aluno chegou a perder a mão enquanto preparava explosivos. O professor foi demitido e proibido de lecionar em escolas públicas.

O psicólogo Philip Zimbardo também conseguiu “transformar homens e mulheres decentes em monstros”, em uma experiência controversa realizada em 1971 com alunos da renomada universidade Stanford. O autor do livro O Efeito Lúcifer – Como Pessoas Boas Se Tornam Más relata sua proposta de simular uma prisão, com carcereiros e aprisionados. Logo constatamos como as equipes se comprometem com sua função no jogo, convertendo-se em autoridades abusivas e cruéis, de um lado, e prisioneiros submissos e apáticos, de outro.

Com isso ele demonstra como todos nós, sujeitos de bem, retamente conduzidos, frequentadores de perus de Natal das festas familiares, estamos sujeitos, mais do que gostaríamos de admitir, a transformações de caráter circunstanciais, influenciados pela moralidade do grupo e pela conveniência sistêmica, o que talvez explique, mas não absolve atitudes tomadas no contexto da identificação coletiva, como a da torcedora brasileira. Zimbardo ressalta a responsabilidade individual por atos imorais, ilegais ou malignos.

Perguntei a Jane se ela já esteve no Brasil ou se gostaria de vir aplicar seu método conosco. Embora não tenhamos em nossa história o racismo institucional após a abolição da escravatura, como vigorou o apartheid nos EUA, parece que padecemos da hipocrisia informal, que curte um axé, um funk ou um rap, mas de longe, sem se misturar. A resposta foi generosa: “Eu adoraria ir ao Brasil, mas pelo valor que a viagem custaria, seria mais interessante veicular meus DVD’s, já que pela TV a mensagem atingiria muito mais pessoas. Professores selecionados podem ser treinados para fazer o exercício. A resposta para esse problema é sempre a educação.”

Ixi. Segundo os dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), divulgados este mês pelo Ministério da Educação, vamos precisar de sorte. 60% das redes públicas do Brasil estão abaixo da meta nos anos finais do ensino fundamental. Do total de escolas públicas e privadas do ensino médio, 23 Estados (de 26! Confere, produção?) ficaram abaixo da meta. E olha que meta do MEC nunca foi lá muito ambiciosa, hein? Deus (Deus?) nos ajude.

Surreal

“Quando ouço uma palavra que não conheço, aquela palavra fica na minha cabeça. Martelando…”

Ela disse isso e bateu três vezes o indicador direito na têmpora, como se costurasse os pensamentos para prosseguir a explicação.

“Uma vez, quando fazia a unha de uma cliente, lá no salão de Botafogo, ela me falou de um filme… Era uma cena policial. E daí de repente ela disse: ‘Surreal!’ Eu fiz que entendi. Concordei com tudo. E ainda dei risada. Mas por dentro, era tudo silêncio. Silêncio não, vazio mesmo. Eu vasculhava meu conhecimento, tentava interpretar as expressões da mulher… Associar o tal ‘surreal’ a outras palavras, mas nada… Não consegui adivinhar o que era. Fiquei com aquilo na cabeça, com aquele meu analfabetismo. Achei que a palavra era em francês. Ou em inglês. Aí fui atrás de saber, né? Porque quando a gente não sabe procura se informar. Hoje eu acho “surreal” uma palavra bonita. Mas como ela me doeu. Me incomodou…”

“O que significa? Ah… É algo assim… absurdo. Fica lá no fundo da cabeça, entre a verdade e a mentira. Assim: ‘Absurdo!’ Já fui até em exposição de arte depois disso. É uma palavra bonita…”

“Sério! Mas por que você está rindo? Hoje eu até uso de vez em quando: ‘Su-rre-al…’.”