Levy e Lévinas – a ética dos aparelhos

Sempre me surpreendo com o avanço do debate político sobre questões religiosas, mas entendo que a moralidade e a cultura de uma pessoa eventualmente vazem para posicionamentos adotados na vida pública. Faz parte. Um ser humano é complexo de pai e mãe. A fuga de uma ideologia dá em outra. Agora, utilizar o “aparelho” público para regular a vida sexual alheia é uma postura que continuamente me escandaliza.

O candidato à presidência Levy Fidelix não está obrigado, claro, a utilizar seu “aparelho excretor” para nada mais além de sua serventia como aparelho excretor, mesmo. E devemos respeitá-lo nessa atitude. Mas é uma lástima que tenhamos de lembrá-lo que cada um cuida de suas “aparelhagens” como deseja e também merece respeito em sua atitude. Essa é uma questão humana, antes de ser política ou religiosa. Humana. Mas também filosófica.

Para o filósofo lituano Emmanuel Lévinas, por exemplo, a animosidade entre indivíduos seria facilmente diluída se cada uma das partes privilegiasse sua alteridade, abrindo mão do poder em prol de uma ligação orgânica que iria além da sociabilidade legítima, por meio do que ele chamou de “socialidade”, orientada de maneira a considerar a significação moral do outro.

Levy não compreende o sexo entre duas pessoas do mesmo gênero, mas entendimento não é prerrogativa da relação ética para Lévinas. Muito ao contrario, o outro jamais pode ser objeto de conhecimento. Primeiro porque o outro não é objeto. Segundo porque suas motivações serão sempre misteriosas e uma relação não pode depender de esclarecimentos para ser ética. A causa da ação é um segredo, uma coisa íntima que nunca pode ser descrita: é a sua liberdade. Se assumimos que um individuo é livre, precisamos admitir a contingência de seus atos. Inclui-se aí a heterossexualidade do candidato. Por que não?

Bem, se eu não posso conhecer o outro, devo então aceitá-lo em meu desconhecimento, tratá-lo a partir disto: a prioridade é ele. Ao abrir mão de seu posto soberano, o mesmo deve depor-se, sair de si, rebaixar-se. Isto é ética: a subordinação do mesmo ao outro. O que importa é a relação que eu tenho com o outro, independente da relação que o outro tenha comigo. Isto porque a ética não implica em reciprocidade. O que eu faço pelo outro é o que me constitui moralmente. A presença ética do outro é mais importante do que a minha existência. O que me faz sujeito é ser para o outro, sem esperar retorno. Eu devo corresponder à expressão do outro com amor, não com conhecimento.

Em si mesmo o sujeito só encontra a pobreza e o vazio. Mais do que isso só pode ser encontrado no contato com o outro – e dessa miséria nem um presidente escapa. O eu, na sua relação consigo mesmo, sempre estará em crise. Para superá-la é essencial encontrar a alteridade. Como o outro nunca poderá ser inteiramente desvendado, conhecido, sua descoberta e presença será sempre traumática. No entanto, Lévinas nos pergunta: se víssemos a humanidade no próximo, se não tratássemos o corpo do outro como “aparelho”, seríamos capazes de atentar contra ele?

Camila Caringe é muito mãe, bastante jornalista e consideravelmente afeita a queijo gouda, na respectiva ordem de importância.