Inconsciência PB

Lamento e agradeço meus olhos por verem.

Um homem de cabelos brancos dá uma bica na cara de um negro.

Não vejo o pé atingir o rosto, mas o depois: o rapaz a passar a mão na bochecha, como a compensar a dor do chute; homens e mulheres a se juntar e a comentar a meia voz: “Deve ter roubado o velho”.

De pernas abertas, sentado na plataforma do trem, o negro veste tênis laranja fluorescente, a cintilar tanto quanto o sol da manhã. O idoso sobe as escadas, escoltado por funcionários da estação.

Acabada a ação, alguém sussurra para mim algo entre dentes, como a buscar cumplicidade.

A rodinha se desfaz. É hora da mais valia.

http://vriemia.luxartsans.com.br/relaxe.html

 

Por Silvia Ribeiro

o tigre e a cobra do atari

escher2

Sonhei que um tigre surgiu na casa em que eu então morava.

A primeira vez que o vi, ele estava sobre a pia da cozinha e tinha a cor verde, por estar em descongelamento. Mamãe descongelava carne para o jantar quando o animal ganhou vida e passou a circular pela casa.

Fiquei apavorada – desconhecia o limite do seu selvagem – e fechei o bicho num pequeno quarto sem tranca, na parte dos fundos (a casa era um misto de onde moro hoje e das casas da minha infância).

O tigre podia se soltar a qualquer momento. E foi o que aconteceu.

Com medo, propus à minha mãe chamarmos o zoológico para recolhê-lo. Ela rejeitou a ideia, entre irritada e sem interesse.

Escapuliu do quarto sem tranca e surgiu sobre o sofá, aninhado com a gata Chica. Depois fui encontrá-lo entre o sofá e a parede, no túnel em que percorria, de gatinho, quando criança.

Consegui de novo deter o animal. Desta vez, no banheiro. Era o banheiro branco da casa de minhas tias. Mas meu pai foi usá-lo e, em sua embriaguez, soltou o tigre.

Por tempos seguidos, sonhei com uma cobra preta — tinha o aspecto de uma minhoca roliça de pele brilhante — fechada na caixa de madeira do Atari. O bicho ficou por anos no mesmo quarto dos fundos, uma espécie de dispensa da casa (seria meu inconsciente?), e não me deixava esquecê-lo.

Eu sabia que precisava abrir a caixa. Não o fazia e era tomada por culpa e aflição ante o que encontraria ali. Algo morto ou vivo, composto ou decomposto.

Esses animais são o sem controle que habita em mim.

Nunca abri a caixa. A cobra desapareceu dos meus sonhos.

O tigre passou a circular livremente em casa. Sobe na geladeira – o pico mais alto – e me espia em silêncio.

 

Por Silvia Ribeiro

Da série: profissões inestimáveis

Quando bateu à porta do investigador de polícia, sentiu que fazia algo errado duas vezes. Primeiro porque batia com a mão esquerda, já que a direita estava enfaixada. Segundo porque sentia o tipo de culpa que sente todo aquele que trai e segue inevitável a rota dos traíras. Ela traía.
Bateu de novo. Lá de dentro escapava escuro e silêncio.
Cogitava retroceder quando a porta abriu de repente.
Um senhor gordo e calvo perguntou o que ela queria.
Parecia óbvio que queria falar com ele. Era o departamento de investigação de um hospital e uma mulher machucada procurava o investigador durante a madrugada com um papel em mãos, registro da alegação de violência doméstica.

__ Quero falar.
__ Senta.

Na pequena salinha a luz se acendeu. Uma caminha estreita fazia teto para uma mala que tinha jeitão de prestar serviços a um investigador muito sério. A televisão ligada no mudo e uma portinha pro banheiro.
Sentou onde ele indicara e deu tempo de notar uma pequena aranha se esgueirando entre as letras enroscadas na teia da máquina de escrever sobre a mesa. Ao lado, um telefone analógico preto, daqueles com um grande disco na frente e seus números entre as bolinhas.
Ele olhou pra ela com cara de muito sono.

__ Deixa ver seu papel.

Ela estendeu.
Estava feito. O investigador perguntaria os detalhes e ela mal conseguiria relatar os anos em que vivera subjugada pela violência psicológica, moral e física a que esteve submetida, culminando naquele chute na mão direita.

__ Vou carimbar aqui e assinar. Vá amanhã a uma delegacia da mulher.
__ Só isso?
__ Sim. O que mais você quer?
__ …
__ Quer o endereço? Eu posso ver pra você.

Pegou o aparelho e começou a buscar os números no disco.
Deu tempo de reparar no mural das circulares na parede atrás dele. Uma mensagem com a imagem de um grande sol dizendo “¡Buenos días ya viene el sol!”, uma escala de plantonistas, o calendário do mês e o maior e mais imponente alerta:

Art. 331 do Código Penal – Decreto Lei 2848/40
Desacatar funcionário público no exercício da função ou em razão dela
Pena: detenção de seis meses a dois anos ou multa.

Ela imaginou quantos acessos de desenfreada fúria aquele aviso extravagante teria inibido.
Ele desligou o telefone, anotou o endereço e despachou mais uma vítima.

_____________________________________________________

Camila Caringe é muito mãe, bastante jornalista e consideravelmente afeita a queijo gouda, na respectiva ordem de importância.