Pari normal

Camila, a da mão maior. Helena, a menor.

Camila, a da mão maior. Helena, a menor.

A primeira coisa que disse para o médico do convênio que me atendeu para o pré-natal foi que queria ter um parto normal. E foi a última coisa também.

Já na trigésima nona semana, ele vaticinou: “a bebê vai entrar em sofrimento fetal. Eu te opero na terça”. Tivesse eu aceitado, a bebê perderia 3 dias de barriga e um parto perfeitamente normal, sob os olhares de uma mamãe suada e lacrimosa e um papai de mão firme, que cortou o cordão umbilical. Teríamos perdido uma à outra, digo. Aquele momento lindo em que estávamos sujas e éramos, pela primeira vez na vida, duas pessoas distintas.

Eu chorei. Ela não. Espertinha, veio pro peito.

O médico do convênio nunca mais teve notícias de nós duas. Não voltei nem pra agradecer pelos meses de consultas meio afobadas e atrasadas.

Ingrata.

Nem voltei pra dizer pra ele que, naquele dia, entrei no consultório rindo da piada ótima que fizemos enquanto descíamos a rua. E saí do consultório chorando, com medo de que minha bebê estivesse sofrendo na barriga.

Nem voltei pra dizer pra ele que, depois da última conversa, falei com mais 4 médicos e nenhum deles me disse que a diminuição do líquido amniótico era crítica. Pelo contrário: era o esperado, já que eu estava na última semana de gestação.

Também nem voltei pra dizer que a minha bebê nasceu saudável e que não me anestesiaram pra parir. Foi na raça, caras. E eu não morri. E ainda vou dizer uma coisa aqui pra vocês: sou totalmente a favor do parto normal e fiquei muito feliz de saber que o governo adotará medidas para coibir a cesariana entre pacientes de convênios médicos. Demorou, mas antes tarde do que nunca.

Pra você, que é gestante e não quer sofrer para dar à luz, vou dizer outra coisa: o aprendizado de lidar com a dor, por essa motivação, é muito importante.

Aceitar, parar de brigar, lidar com a natureza dos fatos. Existe uma criança que cresceu no seu ventre e precisa sair de alguma maneira. No meu caso, que bom que não houve corte, que ninguém colocou uma pinça de ferro na minha barriga e puxou minha criança pelo crânio. Que bom que a minha filha estava envolvida no parto dela, que o coração dela acelerou e deu tempo de ela perceber o que estava acontecendo. Que bom que ela veio pra mim imediatamente e mamou. Que bom que ela mama até hoje, com mais de um ano de idade.

Nós, seres humanos de uma maneira geral, nos afastamos muito da natureza. Em algum momento da civilização adotamos uma postura de desdém, como se a natureza fosse a Amazônia ou o deserto ou o animal selvagem. Como se o leite brotasse na prateleira do mercado e o frango fosse uma criatura asséptica e pálida, concebida à vácuo e sem o pecado original.

O parto é a reconciliação: nós também somos natureza. Parir é uma experiência radical de retorno à natureza. Um parto não é plástico, não é asséptico. Tem sangue, urina, fezes, líquidos, placenta, criança, cheiro de corpo, suor, pêlos. É isso. Passamos a vida disfarçando a natureza do que somos com desodorantes, depilações, roupas que nos cubram o que nos desfavorece, maneiras de minimizar as nossas imperfeições.

É muito libertador poder se aceitar naturalmente em algum momento. Então que seja nesse. Não importa como você escolhe se apresentar no dia a dia, se você gosta muito de acessórios, se sabe usar a moda a seu favor e harmonizar a fragrância com a ocasião. É importante que você saiba quem você é, do que se trata ser um ser humano.

Já que estamos parindo e vamos lidar com melecas diversas nos próximos anos de vida da criança (xixi, cocô, vômito, catarro, ranho, cera, comida pisada, lixo virado, geleca cósmica de brinquedo), é bom começar pelo começo: aceitando, assumindo a responsabilidade, fincando os pés na terra, na dor, na superação, no exercício do abandono do controle, na exposição, no amor.

Ouso sugerir, inclusive, que os maiores dilemas humanos ocorrem por um problema de responsabilidade. Não nos responsabilizamos por nada do que fazemos diariamente. O maior exemplo disso está na alimentação. Comemos a carne de animais que não vimos morrer. Por isso, perdemos o contato moral com o animal, a participação na sua vida e o contato estético com a sua morte. Se você tivesse que matar o animal para comer, comeria? E, se sim, comeria na mesma frequência e quantidade?

Provavelmente o contato, a noção de responsabilidade, afetaria o hábito. Transformamos tudo em pele sem sangue. A plasticidade do alimento, do lixo, do sexo, da imagem, do afeto, da morte e do nascimento.

Daí entramos em parafuso e não sabemos porquê.

Que estranho, né?

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Camila Caringe é muito mãe, bastante jornalista e consideravelmente afeita a queijo gouda, na respectiva ordem de importância.

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Terror induzido

Nunca fui fã. Por essas e por outras fui acusada diversas vezes de ser careta.
Não vou ficar aqui listando minhas incontáveis escolhas que não poderiam ser chamadas de “conservadoras”. Vou me ater a um dado essencial em minha defesa: aos oito anos de idade fui flagrada lendo Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída. Deram sumiço na época, li inteiro com mais de 18.

Leitura muito mais nociva e que ninguém se deu conta antes de começar a avançar os sintomas da demência precoce foi Horror em Amityville, aos 12. O livro era escrito em forma de diário pelo padre que acompanhou a decadência espiritual da família assediada por entidades do mais puro e tenebroso mal. Trazia foto do casal, planta da casa, desenhos da caçula de três irmãos que dizia ter um amigo invisível que lhe aparecia em forma de porco.

A história me deixou tão neurótica que comecei a andar pela casa com as costas grudadas na parede, com medo de estar sendo seguida. Da porta do quarto saltava em pânico para cima da cama, com medo de um espírito segurar o meu pé. Tinha pesadelos. Ligava o rádio, a televisão e todas as luzes da casa às 6h da manhã, enquanto me arrumava para ir à escola. Não suportava a incerteza de estar sozinha na sensação de estar eventualmente acompanhada. Outra leitura censurada que fui encontrar em um cesto abandonado no alto de um guarda-roupas anos depois.

Não sei como foi que aconteceu exatamente. Em algum momento deixei de ser besta. Mas veja, não deixei de ser crédula. O que era apavorante, continua sendo. Apenas não me submeto mais ao terror. Dispenso filmes e livros em que seres humanos de bem precisam convencer o diabo encarnado a deixar livres suas próprias almas. Sabe? Eu não sou obrigada. Agora, o que me causa verdadeiro espanto, juro, são os parques de diversão.

Que noção é essa de diversão? Você paga, PAGA, para ser preso, elevado, sacudido, virado de cabeça para baixo, arremessado, girado e, não raro, ter seu sistema neurológico separado do sistema circulatório por força centrífuga em um brinquedo (?) que fará você ter experiências de quase-morte e, com sorte (?), só vomitar. Um pouco mais previsível é que você sai do parque muito mais estressado do que se tivesse encarado um trânsito de 3 horas para ir, 3 horas para voltar de um trabalho dinâmico e enérgico, como tirar o pai da forca, por exemplo.

Esse tipo de coisa só pode acontecer em uma sociedade que 1) está tão entediada que precisa sentir a morte para sentir a vida ou 2) está tão competitiva que precisa desafiar a morte, a vida, o universo, o pai, a mãe, o brinquedo e o colega na fila. Seria desagradável entrar em detalhes, então não vou dizer qual das minhas irmãs entrou em uma montanha russa sadia e saiu histérica, tendo um ataque intenso de choro e riso ao mesmo tempo. Eu, particularmente, lembro-me do enorme equívoco que cometi ao me deixar prender em uma daquelas estruturas metálicas em torre, donde se vê a cidade lá embaixo, pequena e insignificante. O banquinho parou lá em cima e, por alguns segundos, considerei quais outros meios eu teria para conseguir sair de lá evitando a queda-livre.

Antes da conclusão, veio a queda-livre. A sensação é meio como levar um soco no estômago. Parei de respirar, enxergar e ouvir. Nenhum prazer antes, durante ou depois da queda. Sentir o chão sob os pés novamente soou assim como um privilégio do qual se goza por merecimento após o ritual de iniciação: quem sobreviver sem demonstrar dor de caganeira pode voltar a caminhar por aí de cabeça erguida, como se não tivesse dor de caganeira. Esse é o prêmio. Até que, um belo dia, a pessoa deixa de ser besta.

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Camila Caringe é muito mãe, bastante jornalista e consideravelmente afeita a queijo gouda, na respectiva ordem de importância.