Terror induzido

Nunca fui fã. Por essas e por outras fui acusada diversas vezes de ser careta.
Não vou ficar aqui listando minhas incontáveis escolhas que não poderiam ser chamadas de “conservadoras”. Vou me ater a um dado essencial em minha defesa: aos oito anos de idade fui flagrada lendo Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída. Deram sumiço na época, li inteiro com mais de 18.

Leitura muito mais nociva e que ninguém se deu conta antes de começar a avançar os sintomas da demência precoce foi Horror em Amityville, aos 12. O livro era escrito em forma de diário pelo padre que acompanhou a decadência espiritual da família assediada por entidades do mais puro e tenebroso mal. Trazia foto do casal, planta da casa, desenhos da caçula de três irmãos que dizia ter um amigo invisível que lhe aparecia em forma de porco.

A história me deixou tão neurótica que comecei a andar pela casa com as costas grudadas na parede, com medo de estar sendo seguida. Da porta do quarto saltava em pânico para cima da cama, com medo de um espírito segurar o meu pé. Tinha pesadelos. Ligava o rádio, a televisão e todas as luzes da casa às 6h da manhã, enquanto me arrumava para ir à escola. Não suportava a incerteza de estar sozinha na sensação de estar eventualmente acompanhada. Outra leitura censurada que fui encontrar em um cesto abandonado no alto de um guarda-roupas anos depois.

Não sei como foi que aconteceu exatamente. Em algum momento deixei de ser besta. Mas veja, não deixei de ser crédula. O que era apavorante, continua sendo. Apenas não me submeto mais ao terror. Dispenso filmes e livros em que seres humanos de bem precisam convencer o diabo encarnado a deixar livres suas próprias almas. Sabe? Eu não sou obrigada. Agora, o que me causa verdadeiro espanto, juro, são os parques de diversão.

Que noção é essa de diversão? Você paga, PAGA, para ser preso, elevado, sacudido, virado de cabeça para baixo, arremessado, girado e, não raro, ter seu sistema neurológico separado do sistema circulatório por força centrífuga em um brinquedo (?) que fará você ter experiências de quase-morte e, com sorte (?), só vomitar. Um pouco mais previsível é que você sai do parque muito mais estressado do que se tivesse encarado um trânsito de 3 horas para ir, 3 horas para voltar de um trabalho dinâmico e enérgico, como tirar o pai da forca, por exemplo.

Esse tipo de coisa só pode acontecer em uma sociedade que 1) está tão entediada que precisa sentir a morte para sentir a vida ou 2) está tão competitiva que precisa desafiar a morte, a vida, o universo, o pai, a mãe, o brinquedo e o colega na fila. Seria desagradável entrar em detalhes, então não vou dizer qual das minhas irmãs entrou em uma montanha russa sadia e saiu histérica, tendo um ataque intenso de choro e riso ao mesmo tempo. Eu, particularmente, lembro-me do enorme equívoco que cometi ao me deixar prender em uma daquelas estruturas metálicas em torre, donde se vê a cidade lá embaixo, pequena e insignificante. O banquinho parou lá em cima e, por alguns segundos, considerei quais outros meios eu teria para conseguir sair de lá evitando a queda-livre.

Antes da conclusão, veio a queda-livre. A sensação é meio como levar um soco no estômago. Parei de respirar, enxergar e ouvir. Nenhum prazer antes, durante ou depois da queda. Sentir o chão sob os pés novamente soou assim como um privilégio do qual se goza por merecimento após o ritual de iniciação: quem sobreviver sem demonstrar dor de caganeira pode voltar a caminhar por aí de cabeça erguida, como se não tivesse dor de caganeira. Esse é o prêmio. Até que, um belo dia, a pessoa deixa de ser besta.

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Camila Caringe é muito mãe, bastante jornalista e consideravelmente afeita a queijo gouda, na respectiva ordem de importância.

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