Sobre chaves e travessias

— E como quisesse perder-se de si, esqueceu a chave de casa na areia da praia.

— Talvez não fosse a de casa, mas a do carro com que atravessava ruas… Mas se perdeu mesmo?

— Ele ou a chave?

— Os dois.

— (…) Digamos que se perderam, só por um lapso de tempo.

— Mas se era noite e havia festa de gentes, violões e gritos, como puderam se encontrar?

— Foram as crianças que logo avistaram.

— Avistaram o que?

— Que ali na areia se perdiam: ele e a chave.

— As crianças acharam a chave?

— O pai de uma delas correu até ele e perguntou: ‘Você estava lá atrás?’ (…)

— Uma pergunta um pouco vaga a julgar que havia gentes…

— (…) Ao que ele respondeu meio incrédulo que sim, que estivera ali atrás.

— E foi nesse instante que ele se desperdeu?

— Quase, quase. ‘Essa chave é sua?’, disse o pai balançando o chaveiro diante de seu rosto, tal um
mágico ilusionista que tirou um objeto do espectador e dele recebe um olhar de surpresa e
maravilha. Ele apalpou os bolsos com vigor. ‘Sim, é minha essa chave’.

Por Silvia Ribeiro