Perda de pares

Ela perdeu os dois. Seus dois pares. E descalça foi barrada na porta da festa. Espiou os pés pelados, colados ao chão. Estava mesmo presa à condição dos sem sapatos, que de dois se desdobraram em nenhum. Eram dois saltos altos, mas outros nomes poderiam sem prejuízo se encaixar ante o numeral dois. Impiedosa, a perda — de quem ou o que fosse — desafiava: “Não vai entrar”. Qual uma Cinderela às avessas, voltou onde os havia deixado. E os dois tinham sido surrupiados por uma estrangeira, que também desaparecera. Chegou a questionar se realmente o par existira. Os sapatos saíam de cena na hora em que se desdobrava em mais de uma mulher a cavucarem em si o que de fato se perdia. Não era mais ela, mas elas. E, descarnando, sentiu que em seu corpo uno de mulher cabiam sim vontades tantas— inclusive aquela, de ir à festa descalça.

Por Silvia Ribeiro

Simone de Beauvoir em foto de de Art Shay

Simone de Beauvoir em foto de de Art Shay

A gente se esforça demais

fazendinha

É o que eu fui reparando, a tensão do que é certo censurando o importante. Nisso eu pensei naquela tarde de festa junina na fazenda, quando ouvi a voz das crianças atrás de mim. Entrei com a minha filha no colo na casinha de pau a pique de cuja entrada pendia a plaquinha indicando “casa de pau a pique”. O fogão à lenha, a mesa de madeira, uma pequena máquina de costura e um segundo cômodo com uma cama de colchão de palha. Janelas e porta eram apenas seu contorno sem paradas. E o telhado.

Enquanto eu posicionava a pequenininha para fazer a foto, uma outra mãe entrou com suas duas crianças um pouco mais velhas. As crianças pareciam encantadas, mas a mãe estava entediada, olhou ao redor e abandonou a casa. Coloquei a bebê de pé nos joelhos para que ela alcançasse a vista e ouvi às minhas costas enquanto as crianças deitavam na cama e se cobriam com a palha muito entusiasmadas. O menino disse para a menina:

__ Queria que a minha casa fosse assim. Não. Queria morar aqui. Queria morar em um lugar como esse. Ou… pelo menos ter um lugar como esse pertinho, para eu ir sempre que eu quiser. Eu queria poder vir aqui todos os dias e ficar aqui.

Olhei para trás só pra ver o tom confidente entre os dois. Um tapa na cara das Peppas importadas, dos tablets infantis, dos carros que viram robôs, das bonecas que viram princesas sereias fadas voadoras. Imediatamente me ocorreu aquele dia das mães na escola. Pediram para as mamães prepararem com suas crianças um prato para o piquenique. Preparamos sanduichinhos de pão australiano com legumes crus ralados. Abri os pãezinhos e ela foi jogando os legumes lá, fazendo montinhos coloridos do jeito dela, toda contente e delicada com a comida.

Na hora do piquenique, a professora pediu para cada mamãe falar sobre o prato que fez e contar a experiência. Uma a uma as mamães foram explicando:

__ Ah, minha filha é muito nova, então eu mesma fiz.
__ Não tive tempo, vou confessar. Comprei.
__ Esperei ele dormir e fiz sozinha, pra não fazer bagunça.
__ Eu estava trabalhando, não trouxemos.

Chegando a minha vez, fiquei constrangida.
Sobre “ter tudo”, eu fico com a versão das crianças.

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Camila Caringe é muito mãe, bastante jornalista e consideravelmente afeita a queijo gouda, na respectiva ordem de importância.