até estourar

Um dorso muito magro e preto, um tronco esturricado. Procurei o umbigo e não achei enquanto ele repetia que sua mãe é puta. “Ela é puta pra caralho”, falava, a espalhar um código de empatia entre as moças de cheiro doce. Tinha um orgulho. E não era um orgulho discreto, não. Um pudor qualquer me fez perguntar entre dentes: “Tua mãe é puta, é?” “Puta pra caralho.” E seu sorriso rasgou a cara. Os dentes encavalados saltaram. “E a mãe da minha filha também. Também é puta.” Aí ele quis saber: “Você é cria da onde?” E eu só pensei que esse mundo é de verdade filho da puta: “Eu sou cria daqui também, irmão.” O rapaz, vulgo Gigi, nome Uélison, assentiu satisfeito e deixou os olhos pousados na moldura vermelha-laranja-brilhante que era o mundo àquela hora. O mundo éramos nós, ali sentados no tronco de uma árvore deitada no calçadão, a aproximar nossas violências, enquanto a luz cresceu e cresceu até estourar sobre nossas cabeças.

Por Silvia Ribeiro

troche

Obra de Troche

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um instante

O emaranhado perfeitamente organizado no topo da cabeça tinha a forma de um túnel do tempo psicodélico. Meus olhos eram o céu e sua cabeça, um ciclone a tragar toda a atenção. Os fios se dividiam em camadas branca, cinza e de uma tinta castanha, que insistia em permanecer. Por longos segundos, me deixei a examinar o penteado sustentado por grampos — o caos e a ordem, alheios à beleza e ainda assim belos. A espiral a compor redemoinho e a desafiar o tempo, quando, num solavanco, o metrô abriu as portas e a cabeça correu, a garantir um assento na volta para casa.

Por Silvia Ribeiro

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Fotografia: Henri Cartier-Bresson