Veladas

caringeQuando vi o rosto de Suhayr pela primeira vez, não acreditei na sua beleza. A burca dava a ela um ar de profundo mistério e a única pista, um par de olhos verdes em longos cílios, era arrebatadora. E ela sabia disso. Encontrei-a numa passagem da Universidade El Manar, em Túnis, capital da Tunísia. Suhayr e Sabirah estavam distribuindo materiais sobre o Islã e ficaram muito satisfeitas com meu interesse. Sabirah usava apenas um hidjab, mas de Suhayr só eram visíveis seus olhos. O vento no mediterrâneo é intenso e corta o rosto, então confesso que o hidjab tem serventia prática e pode ser bastante confortável. Mas como se sente uma mulher usando uma túnica escura da cabeça aos pés debaixo do sol do meio-dia?

__ Eu me sinto honrada, respeitada, protegida, valorizada – respondeu Suhayr em um inglês bem pronunciado.

Difícil acreditar que tendo de se esconder para se sentir respeitada ela se sentisse, de fato, respeitada. Deixei que Suhayr e Sabirah brigassem pela minha atenção e, durante alguns dias, segui os passos de sua lógica para compreender do que se tratava aquele raciocínio. Ambas muito jovens, entre 20 e 22 anos, falavam sobre a vida e sobre relacionamentos com um aparente domínio. Suhayr, por exemplo, contou-me que os homens que encontram facilidades em uma mulher não a valorizam. Por isso é importante se conhecer antes de casar, mas se aproximar fisicamente apenas após o casamento. “So no heartbreaks!”

Lentamente e com cautela, comentei sobre os casos de mulheres muçulmanas do Marrocos e da Arábia Saudita que eram usadas por seus maridos ingenuamente para fins de tráfico de drogas e estavam presas no Brasil, abandonadas e envergonhadas, por quem a família não se movia em auxílio. E cheguei na minha própria história: mãe solteira. Relatei os motivos da separação e Suhayr ponderou: “was probably for the best…”

__ O que o alcorão diz sobre isso?
__ O alcorão tem uma sura inteira dedicada às mulheres, ensinando os homens a tratar e a cuidar delas. Não há nada parecido sobre os homens. O profeta se preocupava com as mulheres. Falam muito sobre a opressão sofrida pelas mulheres por seus maridos. Mas não são homens de fé de verdade. O alcorão diz que um marido que se zanga com sua esposa pode deixar de falar com ela por três dias. Se ela não reconsiderar sua teimosia, ele pode fazer isso. – tomou meu antebraço e, com dois dedos, deu um tapinha perto do pulso. – Esse é o castigo que um homem pode dar à sua esposa. Nada mais. O casamento é sagrado e divórcio é algo muito sério.

Perguntei se ela já havia se apaixonado e Suhayr me conta que estava noiva e o noivado se desfez. A família dele foi contra a união após seis meses de namoro. Namoro… no termo deles. Seis meses de encontros com as famílias presentes, ela coberta de um lado, ele no sofá do lado oposto. Ainda assim, o desmanche do noivado trouxe sofrimento à Suhayr, o que ela entregou logo a Deus. Digo, Allah.

__ Posso visitar a mesquita?
__ É apenas para muçulmanos… Mas se você estiver vestida… pode, sim.

Marcamos um encontro para dali a dois dias. Ambas me buscaram no hotel e me levaram para lojas da moda. Entramos em um lugar de roupas femininas e elas ficaram muito felizes em me dar um traje. Escolhi o mais simples e barato. Mas queria tudo. Elas se espantaram:

__ Tudo? Quer usar… tudo? Você diz…
__ Sim. Tudo.

Elas sorriram animadas:

__ Linda! Vamos ensinar você!

É um longo processo: você já está vestida. Por cima, coloca uma túnica de tamanho único. É larga e longa. Para caminhar nas ruas é preciso segurar um pouco do tecido para não tropeçar. Depois, um hidjab (cobrindo os cabelos), que também deve ser preso da maneira correta. Por cima, um niqab (véu que deixa apenas os olhos à mostra). “Oh! Você está tão angelical!” Para finalizar, luvas longas. Por incrível que pareça, as luvas me chocaram. Elas são o auge da perda de contato com o mundo exterior. Nada do que você por acaso toque é possível sentir. O mundo de dentro e de fora da roupa se separam. O que se pode ver de dentro é em linha reta. Para olhar a guia ou o degrau, é preciso segurar o niqab com a mão, aproximando o tecido dos olhos para ganhar um pouco de dimensão. Segurar outra coisa além da roupa pode comprometer o caminhar. Comer na rua é uma arte. Ofereceram-me um docinho e aceitei por cortesia. Daí pensei “e agora, o que faço com isso?”. Ensinaram-me: passa o doce por debaixo do tecido e leva com sua mão de luva até a boca que você não sabe mais onde está exatamente.

No entanto, andando toda coberta, compreendi a explicação de Suhayr: “honrada, respeitada, protegida, valorizada”. Andando como Camila a leitura era rápida: cabelo curto = estrangeira. Sem véu = secular = fácil. Educada = prostituta. Nas mais diversas situações fui assediada: olhando coisas em lojas, pegando um táxi, caminhando na rua, dentro do hotel. Mas na medina especificamente (o local do comércio) era uma loucura. Vendedores pegavam na minha mão e, em vez de responder o preço do que eu estava perguntando, devolviam uma pergunta: “podemos passar esta noite juntos? Você está disponível?” Só com os olhos de fora, no entanto, caminhando pelos mesmos lugares, pedindo a mesma informação para os mesmos homens, senti-me “honrada, respeitada, protegida, valorizada”. Não havia assédio. Apenas homens solícitos, gentis, reservados, sérios, dedicados e distantes. A atenção, em alguns momentos, era servil. Alguns homens se inclinavam ligeiramente na chegada e na despedida. Era uma reverência à pureza e decência que os tecidos sugeriam.

Os homens árabes são, de maneira geral, robustos e fortes, grandes, espaçosos, agressivos, traços marcantes, imponentes. Briguentos, gritam no trânsito, gritam para pedir uma oferta na medina, gritam quando se encontram. Nas músicas, gritam. A arte é dionisíaca, exterior, dramática. Não vi um homem beijando uma mulher em espaço público, mas muitos homens se cumprimentavam calorosamente com beijos no rosto, abraços e caminhavam de mãos dadas. De Túnis à Roma, duas horas em um avião com vários lugares vazios, os comissários tiveram de separar brigas três vezes, porque os homens estavam aos socos. São impacientes e voluntariosos numa cultura que os aprova e incentiva na soberania masculina. Homens e mulheres parecem estar ainda muito próximos de um tempo onde a formação grupal dava coerência às atividades de comércio e guerra, basicamente, sendo o casamento o comércio feminino.

A formação em comunidade pode servir a dois princípios contraditórios: a proteção e a obrigação. A vocação do segundo é dilacerar o primeiro. E no jogo cotidiano as mulheres estão particularmente fragilizadas. Minhas novas amigas logo passaram a me chamar de irmã. Conversávamos sobre nossas vidas e coisas íntimas. Enquanto comíamos, oferecíamos a comida a qualquer estranho que se acercasse. É o que o profeta diz que deve ser feito. Dividir a comida. Minhas novas irmãs, as três, estudavam e eram cultas. Falavam inglês, árabe e francês. Estavam na universidade. Podiam escolher seus maridos. Especificamente naquele cenário, a religiosidade era compreensão influenciada pela família e sociedade, mas era também uma escolha pessoal. Nenhuma delas demonstrava qualquer incômodo pela ideia de se casar, ter filhos, estar sob julgo do pai e depois do marido. Pelo contrário. Fazia sentido. Era um anseio.

Pela primeira vez me ocorreu que uma mulher que se cobre o faz em um exercício de liberdade orientado por sua religiosidade. E há efeitos práticos a serem considerados: enquanto uma mulher ocidental de um Estado laico, por exemplo, pode se despir em um exercício de liberdade, para ganhar dinheiro, fama, atenção masculina ou simplesmente porque se sente confiante e confortável para fazê-lo, uma mulher árabe pode se cobrir em um exercício de liberdade, para ganhar dinheiro, fama, atenção masculina ou simplesmente porque se sente confiante e confortável para fazê-lo. Não foram poucas as vezes que paramos na frente de joalherias e elas me mostraram o que gostariam de ganhar de seus noivos e de simular o que lhes parece ideal que um homem lhes provenha. Para olhos de Suhayr ou de Capitu, cobrir-se pode ser bastante apropriado.

As violações, mutilações, abusos, venda de meninas para casamentos negociados, estupro, escravidão, castigos, tortura e assassinatos de mulheres é muito mais fácil de se praticar em sociedades que privilegiam a administração masculina no lar e fora dele, onde a legislação regula a condução feminina pelo olhar de seu tutor, onde não existe punição normatizada aos homens que se excedem, onde as mulheres se deixam gerenciar inspiradas por sua ingenuidade, onde as instâncias legais são burocratizadas pelo exame da fé. Mas o fato é que para eles também não é fácil. Husam, um jovem de 19 anos que conheci por lá, confessou-me estar apaixonado por uma brasileira que, bem, não cobre a cabeça para frequentar o Rio das Ostras. Ela usa biquíni, o pai dela deixa, o Estado permite, tudo bem.

Para Husam, tudo bem vírgula. Mas ele está na Tunísia. Ela, no Brasil. Husam não faz todas as orações do dia, não fala frequentemente com Allah, não dispensa ter dúvidas sobre a religião, mas também não precisa dar satisfação sobre isso a ninguém. É homem, afinal de contas. A família orienta, mas não cobra. Isso alivia as pressões?

__ Não. Na verdade, estou protelando algo que… Bem, eu sei que algum dia eu vou ter que fazer o que eu tenho que fazer. Sei qual é o meu caminho. Sei quais são as escolhas certas e as erradas. Mas agora não quero pensar nisso.

Até perguntei quais são as escolhas certas e quais são as erradas. Mas quando ele tergiversou, entendi que o importante ali é que ele acredita que, do alto de seus 19 anos, já existem escolhas certas esperando que ele as faça. O caminho já foi definido. Ainda assim, Husam pode namorar muitas garotas. Uma garota para se casar com Husam quando ele estiver pronto para a “escolha certa” deve ser virgem e crente. Antes do casamento ele pode exigir um teste de integridade do hímen da noiva. Qualquer familiar de uma mulher pode exigir o exame. Em contrapartida, qualquer familiar do noivo pode pedir o exame de integridade do ânus. Sexo fora do casamento é crime. Homossexualidade também. A comunidade que protege é a mesma que vigia.

Chegamos à mesquita e esperamos um pouco à porta. O horário de abertura estava próximo.
Tenho cá um particular interesse por espaços religiosos. Igrejas, mesas, terreiros, sinagogas, templos. Se a porta estiver aberta eu vou. Mas a sensação da mesquita inspira algo diferente de tudo o que eu já tinha visitado.
Uma mesquita é um espaço limpo.
Essa é a melhor definição que posso encontrar.
É limpa.

Não há poluição. Não há sugestões. Não há imagens de gente viva, morta, bicho, nada. Não há inscrições nas paredes, não há vitrais contando a história do profeta, não há esculturas. Existe o chão, o teto, grandes corredores fluídos integrando os espaços bem iluminados pelo sol de fora, tapetes de oração. Toda a simbologia e o rito que envolve o sagrado deve ser ensinado. Nada é presumível nem dispensa a iniciação por um praticante. As normas são rigorosas. Suhayr, Sabirah e uma nova irmã que se juntou a nós, Sumayyah, foram me guiando:

__ Aqui tiramos os sapatos. Guardamos aqui. Todos esses livros são o alcorão. Tem em diversos idiomas. É só pegar o que te agrada para ler. Aqui pegamos esses sapatos limpos. Aqui colocamos. Aqui tiramos novamente. Agora vamos nos lavar. Três vezes a mão direita. Três vezes a mão esquerda. Três vezes o braço até o cotovelo. Direito. Três vezes o esquerdo. Três vezes o rosto. Três vezes o nariz. Primeiro a narina direita. Três vezes. Depois a esquerda. Três vezes. Agora a boca. Três vezes. E as orelhas. Com esse dedo, primeiro a orelha direita. Três vezes. Agora a esquerda. Vamos para o lava pés. Primeiro o direito. Assim. Depois o esquerdo. Com esse dedo, você vai limpar entre os dedos. Três vezes. Primeiro o direito…

Suhayr ia falando e eu ainda estava perplexa com a beleza dela. Era a primeira vez que a via sem o niqab. Uma jovem linda, religiosa, crente, rigorosa. Uma mulher virtuosa do Islã, sem dúvida. Iniciava-me com alegria e método. A aproximação de Allah não pode ser vulgar. É preciso respeitar e merecer o sagrado. Ela deixava claro.

__ Vamos colocar os sapatos e voltar lá pra cima.

Voltamos lá pra cima. Tiramos os sapatos novamente. Eu, impetuosa, corri feliz como uma criança para o parapeito do primeiro andar ao ouvir o chamado e ver os homens entrando na parte de baixo. Ela me puxou para trás com gentileza.

__ As mulheres desconcentram os homens. Melhor não sermos vistas. Seja discreta.
__ Mas eles não sabem que estamos aqui?
__ Essa parte é reservada para as mulheres. Eles sabem disso. Mas se há alguém aqui, se não há, quem está, nada disso precisa ser revelado.

Uma religião de muitos véus, portanto.
Puxaram um lindo tapete e me ensinaram a oração.

__ Senta. Não. A perna assim. Os pés assim. Cabeça ao chão. Não. Cotovelo assim. Pés assim. Cabeça assim. Volta. Mais uma vez. Volta. Mais uma vez. Volta. De pé. Mão assim. Faz assim. Agora assim. Cabeça ao chão. Olha o pé! Cotovelo. Isso. Sobe. Desce. Sobe. Desce outra vez. Sobe de novo. Agora você pode dizer a Allah qualquer coisa que esteja em seu coração. Tem três segundos. Desce. Cabeça ao chão. Agora…
__ Impossível me lembrar de todos os passos – falei. – São muitos!
__ Tudo bem. Podemos te passar alguns vídeos com explicações detalhadas. Aos poucos você aprende. Temos até aplicativos para te lembrar o horário de todas as orações.

E as orações coletivas tiveram início.
Fiquei muito perdida.
Passei tempo demais no chão, corri pra levantar, perdi o ritmo de abaixar e fiquei sozinha em pé, comecei a dizer a Allah o que estava no meu coração e já interromperam com palavras de ordem e aí tinha que abaixar de novo e eu nunca sabia se era só pra ajoelhar ou se era pra colocar a cabeça ao chão. Mas finalmente reconheci alguma coisa ali. A voz da oração em uníssono. O canto árabe me lembrou o latim gregoriano, o guarani dos mbya. Finalmente uma inspiração conhecida. É como dançar uma outra dança da chuva. Mas a intenção é a mesma: chuva.

Reconheci Allah naquelas terras secas e sorri.
É o mesmo homem. A mesma mulher.
Levei a cabeça ao chão e não me preocupei em levantar na hora certa.
Sorri.

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Camila Caringe é muito mãe, bastante jornalista e consideravelmente afeita a queijo gouda, na respectiva ordem de importância.

Ilustração de Vitor Massao.

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Homens que batem

Eu estava em um encontro que nem era propriamente sobre o tema. Era uma agenda transversal que reunia representantes de organizações da sociedade civil, do governo e de agências da Organização das Nações Unidas (ONU). A Xica, dita assim mesmo, apresentada assim, grafada assim, aproveitou a oportunidade e pediu a palavra. Levantou lá do fundinho uma mulher negra e pegou o microfone, sem demonstrar exaltação:

“Você me conhece? Você se sente bem em me representar? Estou falando como a Xica 200 milhões de pessoas do Brasil. Essa é uma angústia que eu tenho. Eu não tenho saber acadêmico, mas tenho o saber da prática, da sobrevivência. Na nossa comunidade, onde tem mulheres feministas, quantas Xicas da vida foram mantidas em cárcere privado durante dez anos, sobreviveu e agora tem sequelas, cega de um olho, dois natimorto, duas taquicardia, 51 anos, fiz ontem, tô viva. E aí eu me dirijo aos nossos representantes nacionais e internacionais e pergunto porque que não escutam uma Xica dessa? Será que é porque ela não é acadêmica? Ou porque não sabem? Se não sabiam, estão sabendo agora. Esses homens não nos escutam. A maioria dos representantes é homem. Eu fui espancada por um homem, mas não tomei raiva dos homens. Ainda acho que vou encontrar meu príncipe encantado. E tenho três filhas lindas, negras. Pelo amor de Deus. As mulheres estão gritando. Por serem espancadas, pela desigualdade, mas não tem escuta também para os homens. Só que a maior parte dos homens também não quer nos escutar. Eu sou uma mãe, mulher, livre. Eu quero voltar a estudar, fazer faculdade, estou começando um curso de inglês agora, não dá mais para camuflar a situação.”

Não dá. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que mais de um terço das mulheres de todo o mundo são vítimas de violência física e sexual. Trata-se de um problema de saúde global com proporções endêmicas, provocando problemas como fraturas, contusões, complicações na gravidez, depressão e transtornos mentais. A agressão cometida por parceiro íntimo é o tipo mais comum de violência contra as mulheres em todo o mundo, chegando a 30%. No Brasil, do total de 52.957 denúncias de violência contra a mulher recebidas pelo 180 em 2014, 27.369 corresponderam à violência física (51,68%).

91% dos entrevistados em maio e junho de 2013 pelo Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) concordam que “homem que bate na esposa tem que ir para a cadeia”. Por outro lado, pesquisa realizada pelo Instituto Avon em parceria com o Data Popular conclui que jovens percebem o machismo arraigado na sociedade, mas reproduzem ações e valores que reiteram as desigualdades de gênero e a violência doméstica. Embora 96% dos jovens aprovem a Lei Maria da Penha, muitos parecem não se dar conta de assumir práticas sexistas e conservadoras. Xica, vítima de violências diversas, tem sorte. Ela não está entre as 50 mil mulheres assassinadas no Brasil por causas violentas entre 2001 e 2011. Segundo o Ipea, foram, em média, 5.664 mortes por ano, 472 a cada mês, 15,52 por dia ou uma morte a cada 1h30. Xica se salvou.

Estado das coisas

camila02Quando vi a chamada para o evento, pensei “Como assim o primeiro? Nunca houve um antes?”. Parecia óbvia a necessidade, mas só agora, por iniciativa dos institutos Vladimir Herzog e Patrícia Galvão, tivemos o I Seminário Internacional Cultura da Violência Contra as Mulheres (São Paulo/2015). Lá, as “acadêmicas” que fazem escutas às Xicas diariamente tornaram público esse “grito”. A antropóloga Rita Segato, militante feminista e pesquisadora, explica que particularmente na família negra e indígena o homem se transformou no colonizador dentro de casa. Por sua fragilidade e vulnerabilidade, absorve o modelo de masculinidade do opressor e reproduz o mandato que chega de fora e o captura, tornando-se imensamente violento.

“Quando o Estado chega nas tribos, a violência aumenta, o que é um paradoxo. Às vezes a modernidade entrega com uma mão o que já tirou com a outra. Se não compreendemos a complexidade dessa cena, não vamos conseguir traçar estratégias adequadas.” Ela reflete ainda que, no Brasil, temos o hábito de considerar tudo o que acontece com a mulher como parte da esfera íntima, do espaço do lar. Está certa. De acordo com a pesquisa do Ipea, 89% dos entrevistados tenderam a concordar que “roupa suja deve ser lavada em casa” e 82% aceita que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Nos países da América Central, segundo ela, há uma percepção da diferença e dos vínculos entre crimes contra as mulheres na família e o avanço das gangues, os assassinatos e as formas de violência contra o corpo feminino, fenômeno que está sendo chamado de “as novas formas da guerra”.

Rita nos dá uma pista em vocabulário acadêmico que a intuição de Xica já havia registrado: o Estado não é inocente, porque também é contraventor. Sua origem, misógina, racista, patriarcal, ainda que acolha mulheres em alguns espaços institucionais, tem sua constituição atravessada pelas noções de conquista, colonização e formas específicas de ataque às mulheres, domínio, massacre físico e cultural dos corpos que não são brancos ou que são feminilizados.

A figura máxima de representação democrática no Brasil, a presidência da república, é hoje ocupada por uma mulher. A Câmara dos Deputados, no entanto, composta por representantes do povo eleitos pelo sistema proporcional em cada estado, conta com 513 Deputados Federais, com mandato de quatro anos. 50 são mulheres. Ou seja, menos de 10%. A composição do Senado Federal é de 81 Senadores. 13 mulheres. No cenário municipal, São Paulo, cidade da jornalista, tem 55 vereadores. 5 mulheres. Em Belo Horizonte, cidade da Xica, são 41 vereadores na Câmara. Apenas uma mulher no exercício. Talvez isso explique a dificuldade dos representantes em ouvir as Xicas ou mesmo se dar conta de sua existência.

A saída? Para a pesquisadora, estratégias que partam de dentro do Estado aliadas ao resgate do feminismo de rua praticado no início dos anos 70, onde a união de amigas, irmãs e relações vinculares faziam circular informação de maneira interpessoal, fortalecendo as mulheres para o reconhecimento e para a reação em situações de abuso, violência, assédio ou discriminação. O que seria um bom Estado? “Aquele que cuidasse da devolução do tecido comunitário, de sua restauração, que não nos permita respeitar o íntimo, a esfera privada, no caso de haver uma mulher sendo oprimida. A formação em comunidade conseguia proteger as mulheres muito melhor do que os agentes do Estado moderno.”

“Esse Estado que nós queremos, sem nós lá dentro, nunca vai existir.” O chamamento é de Luiza Bairros, ativista do movimento negro e ministra-chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) do Brasil entre 2011 e 2014. Luiza conta que esteve recentemente em Tocantins. Ao visitar uma comunidade quilombola, estava preparada para ouvir reivindicações relativas à regularização de territórios, questão sobre a qual poucos avanços foram promovidos nos últimos anos. No entanto, a reivindicação girou em torno das bolsas de permanência para alunos cotistas na universidade da região.

“Quer dizer, eu não posso achar que não mudou nada, entendeu como é que é? Porque essa mãe que se levantou com a questão tem uma percepção do que ela, a família e a comunidade toda tem para reivindicar do Estado que definitivamente não é mais a mesma de dez, quinze anos atrás. Acho que fizemos as instituições brasileiras se moverem na direção da resposta às demandas, dos direitos, dos interesses do conjunto da população. Mas acho também que quanto mais caminhamos, mais está colocado para nós, mulheres, e para nós mulheres negras mais especificamente, a necessidade de avançar na ocupação dos espaços de poder efetivos. Porque é por esses espaços que nossas reivindicações chegam lá. No avanço que fizemos, criamos uma margem institucional e a discussão continua desigual.”

Continua desigual

A iniciativa Énois | Inteligência Jovem realizou um estudo, em parceria com os institutos Vladimir Herzog e Patrícia Galvão, com mais de 2.300 mulheres de 14 a 24 anos, das classes C, D e E, que envolveu a aplicação de questionário online e entrevistas em profundidade para compreender como a violência contra as mulheres e o machismo atingem as jovens de periferia. Os números levantados pelo estudo mostram que 74% das entrevistadas receberam um tratamento diferente em sua criação por serem mulheres. 90% dizem que deixaram de fazer alguma coisa por medo da violência, como usar determinadas roupas e frequentar espaços públicos. 77% acham que o machismo afetou seu desenvolvimento. Clique aqui para ver o vídeo da campanha.

Flávia Piovesan, procuradora do Estado de São Paulo, especialista em Direitos Humanos, Direito Constitucional e Direito Internacional, traz mais alguns dados:

– 70% dos pobres do mundo são mulheres.

– 70% dos analfabetos adultos no mundo são mulheres.

– Se tomarmos como exemplo a pirâmide salarial brasileira, na base estão as mulheres negras, seguidas dos homens negros, mulheres brancas e homens brancos. O racismo é estruturante e se alia à perspectiva de gênero.

– Mulheres que trabalham fora dedicam à casa em média 4 horas do seu dia. Portanto, às 40 horas da jornada de trabalho adicionamos 28 horas, o que resulta em 68 horas semanais. Já os homens que trabalham fora, segundo pesquisas do economista Pastore, dedicam 0,7 hora do seu dia à esfera doméstica. Uma jornada de trabalho de 45 horas semanais, portanto.

“O empoderamento das mulheres demanda autonomia física, econômica e política.” Flávia ressalta as recentes conquistas no poder judiciário, como o reconhecimento das uniões homoafetivas, em maio de 2011, numa atuação antimajoritária, bem como a antecipação terapêutica do parto no caso de anencefalia fetal. “Mas essas vitorias estão sendo ameaçadas por meio do estatuto na família e estatuto do nascituro, reação dos conservadores. Nosso parlamento é hoje o mais reacionário das últimas décadas, nossas pautas estão reféns das bancadas religiosas.”

Colaboração da mídia

Para Guilherme Canela, assessor de comunicação e informação para o Mercosul e Chile da Unesco, existe um chororô de jornalistas da região sobre a dificuldade de se fazer matérias de qualidade sobre a questão da violência de gênero. A rede complexa de discussão de políticas públicas esbarra nas questões de direitos humanos, coisa que, em teoria, apenas grandes corporações com poderio econômico e redações equipadas conseguiriam levar adiante.

O prêmio Pulitzer de reportagem deste ano vem para desmistificar essa impressão. Um pequeno jornal da Carolina do Sul foi contemplado pela série “Till Death Do Us Part” (Até que a morte nos separe), publicada ao longo de 2014. Glenn Smith, jornalista e editor de projetos especiais do periódico, conta que o trabalho de apuração teve início em 2013, quando as políticas de prevenção de violência de Washington DC apontaram a Carolina do Sul como o estado mais letal em termos de mulheres que tinham sua morte provocada por homens. A região já havia aparecido entre os dez estados mais letais nos últimos 15 anos e esteve em primeiro lugar três vezes.

“Começamos a nos perguntar porque isso acontecia e porque mais pessoas estavam se preocupando com isso. Passamos oito meses viajando por todo o estado conversando com vítimas, crianças, policiais, juízes, políticos, qualquer um que pudesse lançar luz à questão e nos ajudar a compreender todos os fatores políticos, culturais, econômicos ou qualquer outro que nos apontasse porque a Carolina do Sul enfrentava esse problema.” O resultado da investigação foi surpreende. Encontraram mais de 300 casos de mulheres que morreram nas mãos de homens em uma década. Isso é mais do que o número de soldados naturais do estado que morreram em combate no Afeganistão.

A quantidade de assassinatos de mulheres na Carolina do Sul é maior do que o dobro da média nacional. Entre os muitos fatores que levam a isso está a escassez de recursos para as vítimas. Durante a investigação, jornalistas constataram que havia 46 abrigos para animais, por exemplo, e apenas 18 para receber mulheres vítimas de abuso e violência doméstica. Depois, descobriram que cerca de 60% dos casos que seguiam para a corte criminal eram abandonados por uma ou outra razão. Dezenas de medidas foram adotadas na tentativa de prevenir mortes, mas as políticas não eram eficazes.

“Após a publicação da série, a resposta social veio quase que imediatamente. Policiais, políticos, juízes, todos estavam falando sobre o assunto, como melhorar os recursos, a educação, as políticas. Precisamos traçar estratégias, fazer campanhas de educação sobre violência doméstica nas escolas, aumentar a punição dos abusadores. Foi muito bom ver toda essa movimentação. Isso é um recado para a mídia lá fora. Nós somos uma empresa muito pequena. Temos uma equipe de 18 pessoas com uma tiragem de 8 mil exemplares. Alguns podem pensar que somente grandes corporações conseguem fazer esse tipo de projeto, mas não se você estiver comprometido em contar histórias que importam”, diz Glenn.

Guilherme acredita que o segredo dessa matéria é a associação entre discussão dos crimes e das políticas públicas, o que não acontece na cobertura de violência pela mídia brasileira. Em vez de tratar os relatos como ocorrências isoladas, a sugestão é que a mídia atue de maneira a situar casos individuais entre dados gerais e investigar as possíveis respostas sociais aos desafios que se colocam. É também uma questão de quantidade, espaço de cobertura e vocabulário politicamente correto, mas principalmente de perspectiva.

As mídias alternativas, no entanto, já cumprem um papel de reação, lançando por meio de ações autônomas campanhas de conscientização sobre os direitos das mulheres. É o caso da Chega de Fiu-Fiu, iniciativa do blog Think Olga, que começou com a atitude de um grupo de amigas e chegou até a Defensoria Pública do Estado de São Paulo, promovendo uma ação conjunta com o Núcleo de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher. Outros exemplos são as hashtags “eu não mereço ser estuprada” e “menina pode tudo”, esta última campanha do Énóis | Inteligência Jovem, incentivando relatos e protestos sobre o assunto, ampliando a percepção de situações abusivas e provocando debates.

“É curioso que se a internet tem sido um espaço de circulação de violência e de obrigação, também tem sido um espaço de resistência. As meninas estão mais politizadas e entendem mais coisas como violência, percebem o direito delas à integridade, ao consentimento, o direito ao próprio corpo… isso é um ganho impressionante”, afirma Beatriz Accioly, pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais da Diferença, do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). “As redes sociais, mais do que as mídias tradicionais, têm esse papel, o potencial subversivo de resistência, da possibilidade de mulheres se unirem em rede.”

Mas, ao facilitar o funcionamento de redes, a tecnologia fez surgir novas formas de abuso e crimes de gênero, como a chamada “pornografia de vingança”. Filmada e fotografada com ou sem consentimento, as imagens íntimas de uma mulher podem ser veiculadas no término do relacionamento, em situação de chantagem, extorsão ou revanche. “Acho importante questionar o termo pornografia e essa vingança. E as pessoas que circulam esse material? Para além da pessoa que iniciou, quem continua o círculo? Um fato como esse não diz respeito só ao casal nem aos profissionais de direito. Diz respeito a todo mundo que recebe e em vez de mandar um e-mail pra moça dizendo ‘eu sinto muito, serei testemunha se você for dar parte’, passa adiante ou dá risada.”

Entre os entrevistados em maio e junho de 2013 pelo SIPS do Ipea, 26% concordam que mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas. Em 2011, foram notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, 12.087 casos de estupro no Brasil, o que equivale a cerca de 23% do total registrado na polícia em 2012, conforme dados do Anuário 2013 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Cinco mulheres são espancadas a cada 2 minutos no País, mas 91% dos homens dizem considerar que “bater em mulher é errado em qualquer situação”. 56% dos homens admitem que já cometeram alguma dessas formas de agressão: xingou, empurrou, agrediu com palavras, deu tapa, soco, impediu de sair de casa, obrigou a fazer sexo. (Data Popular/Instituto Avon 2013). Talvez esteja entre os que admitem aquele que manteve Xica sob cárcere e tortura por dez anos.

Homens que choram

A pesquisa do Data Popular e Instituto Avon, “Percepções dos Homens Sobre a Violência Doméstica contra a Mulher” (2013), revela que o ambiente da infância pode influenciar o comportamento do homem adulto. 67% dos agressores alegam ter presenciado discussões dos pais quando crianças, enquanto entre os não agressores esse número cai para 47%. Entre os agressores, 21% assistiram a episódios de violência física. Entre os não agressores o número cai para 9%.

A médica Ana Flávia D’Oliveira, pesquisadora e professora do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), conta que inquéritos envolvendo homens que buscam auxílio no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD) do estado de São Paulo mostram uma realidade de abandono, exploração, violência, negligência e abuso na infância, formando o homem adulto que sofre e reproduz a violência de maneira sistêmica, um quadro que é agravado pelo uso de entorpecentes.

“Eu trabalho com esse tema há 20 anos. Fiquei surpresa ao me deparar com uma população tão vulnerável, extremamente excluída, negra, gay, travesti. São homens que tiveram uma masculinidade praticamente impossível. Eles sofrem muita violência e perpetram muita, muita violência. Chama a minha atenção abuso sexual na infância, castigo físico pesado quando era criança e testemunhar violência entre o pai e a mãe. Precisamos falar disso para lembrar a cultura da violência e a dificuldade em se aderir a um padrão muito simplista, maniqueísta, de mulheres boas e homens misóginos, malvados, ruins. Essa dicotomia que às vezes nos serve instrumentalmente para uma ou outra ação nos solapa o chão de lutar contra a violência.”

Rita Segato concorda e destaca o próprio sistema político-econômico como exploratório e excludente. As pressões financeiras que recaem sobre os ombros masculinos na cultura patriarcal são motivadoras de crises de difícil solução. “O homem violento também sofre. De uma forma diferente de sofrimento, mas também sofre. E a erupção, o auge de letalidade das mulheres, o aumento da vitimização, da crueldade sobre seus corpos não pode ser separada das pressões, da intempérie, do risco permanente de cair na vida precária e não ter como sobreviver, a supressão de direitos dos trabalhadores, o declínio do salários, aumento do trabalho servil e escravo. Esse clima bélico entra nos lares e se reproduz nos espaços domésticos.”

caringe_02O papel da experiência pessoal, cultural e da educação na motivação da agressividade já foi alvo do estudo de muitos pesquisadores das mais diversas áreas de atuação. O antropólogo Ashley Montagu dedicou um livro a discutir os mais citados estudos utilizados para apoiar as teorias da agressividade inata. Em The Nature of Human Aggression ele contesta argumentos da psicologia, neurologia, biologia e da própria antropologia. Para ele, o fato importante não é que um ser humano agressivo se tornou o que estava predestinado a ser, mas sim o que, dentro das limitações genéticas, aprendeu a ser.

“Os indícios mostram que todos os organismos, quando frustrados na satisfação de certas necessidades, especialmente das necessidades de dependência, da necessidade de amor, recorrem aos mesmos recursos orgânicos para tornar conhecidas suas necessidades. […] O fato de a criança desenvolver um componente agressivo em seu comportamento dependerá em grande parte da maneira pela qual foi socializada e dos modelos que a sociedade lhe forneceu.” Ele utiliza exemplos como o dos Tasaday, onde as crianças são desestimuladas a se comportar de maneira agressiva e os adultos convivem pacificamente, sem registros de ataques entre si ou entre bandos. O pesquisador descreve como a postura de cooperação e empatia atravessam as barreiras da seleção natural. Indivíduos egoístas e violentos tendem a ser solitários e, por isso, estão mais vulneráveis aos desafios da sobrevivência.

Ana Flávia ressalta as tantas categorias que criam grupos marginais, vulnerabilizando as populações que não correspondem aos padrões e levando-os a atitudes extremadas e antiprodutivas. “É sintoma de uma vida de exclusão que vai virar violência contra mulher, cachorro e criança que aparecer no caminho. Quem for mais fraco. Temos que ter certa compaixão e esperteza de entender a situação como um todo. Homem tem afeto também. Quando pensamos que homem não é afetivo e não se importa com nenhuma forma de relação, estamos reproduzindo cultura de gênero nos padrões mais estereotipados. E isso você só descobre durante as conversas. Claro que a estrutura é injusta. Precisamos reconhecer essa injustiça, ainda que tenhamos que responsabilizá-los pela violência que praticam. A exploração econômica não só alimenta, mas acirra a violência na sociedade globalizada e competitiva. Se é para relembrar o sexismo, o racismo, vamos relembrar também o classismo.”

“Falar de gênero é falar de relação, não é falar só de feminino”, defende Beatriz Accioly. Para ela, a sociedade é responsável por formar homens limitados aos padrões de gênero, dizendo que “menino não chora”, “menino não dança” ou “menino não cruza as pernas”. A cultura do mercado também envolve a masculinidade desde a infância, já que os “brinquedos de menino” remetem a lutas e conquistas. “Precisamos discutir masculinidades e a criação de meninos, educar nossas crianças em condições igualitárias. Não ensinar meninas a não serem estupradas, ensinar meninos a não estuprarem.”

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Camila Caringe é muito mãe, bastante jornalista e consideravelmente afeita a queijo gouda, na respectiva ordem de importância.

Ilustrações de Vitor Massao.

A gente se esforça demais

fazendinha

É o que eu fui reparando, a tensão do que é certo censurando o importante. Nisso eu pensei naquela tarde de festa junina na fazenda, quando ouvi a voz das crianças atrás de mim. Entrei com a minha filha no colo na casinha de pau a pique de cuja entrada pendia a plaquinha indicando “casa de pau a pique”. O fogão à lenha, a mesa de madeira, uma pequena máquina de costura e um segundo cômodo com uma cama de colchão de palha. Janelas e porta eram apenas seu contorno sem paradas. E o telhado.

Enquanto eu posicionava a pequenininha para fazer a foto, uma outra mãe entrou com suas duas crianças um pouco mais velhas. As crianças pareciam encantadas, mas a mãe estava entediada, olhou ao redor e abandonou a casa. Coloquei a bebê de pé nos joelhos para que ela alcançasse a vista e ouvi às minhas costas enquanto as crianças deitavam na cama e se cobriam com a palha muito entusiasmadas. O menino disse para a menina:

__ Queria que a minha casa fosse assim. Não. Queria morar aqui. Queria morar em um lugar como esse. Ou… pelo menos ter um lugar como esse pertinho, para eu ir sempre que eu quiser. Eu queria poder vir aqui todos os dias e ficar aqui.

Olhei para trás só pra ver o tom confidente entre os dois. Um tapa na cara das Peppas importadas, dos tablets infantis, dos carros que viram robôs, das bonecas que viram princesas sereias fadas voadoras. Imediatamente me ocorreu aquele dia das mães na escola. Pediram para as mamães prepararem com suas crianças um prato para o piquenique. Preparamos sanduichinhos de pão australiano com legumes crus ralados. Abri os pãezinhos e ela foi jogando os legumes lá, fazendo montinhos coloridos do jeito dela, toda contente e delicada com a comida.

Na hora do piquenique, a professora pediu para cada mamãe falar sobre o prato que fez e contar a experiência. Uma a uma as mamães foram explicando:

__ Ah, minha filha é muito nova, então eu mesma fiz.
__ Não tive tempo, vou confessar. Comprei.
__ Esperei ele dormir e fiz sozinha, pra não fazer bagunça.
__ Eu estava trabalhando, não trouxemos.

Chegando a minha vez, fiquei constrangida.
Sobre “ter tudo”, eu fico com a versão das crianças.

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Camila Caringe é muito mãe, bastante jornalista e consideravelmente afeita a queijo gouda, na respectiva ordem de importância.

Pari normal

Camila, a da mão maior. Helena, a menor.

Camila, a da mão maior. Helena, a menor.

A primeira coisa que disse para o médico do convênio que me atendeu para o pré-natal foi que queria ter um parto normal. E foi a última coisa também.

Já na trigésima nona semana, ele vaticinou: “a bebê vai entrar em sofrimento fetal. Eu te opero na terça”. Tivesse eu aceitado, a bebê perderia 3 dias de barriga e um parto perfeitamente normal, sob os olhares de uma mamãe suada e lacrimosa e um papai de mão firme, que cortou o cordão umbilical. Teríamos perdido uma à outra, digo. Aquele momento lindo em que estávamos sujas e éramos, pela primeira vez na vida, duas pessoas distintas.

Eu chorei. Ela não. Espertinha, veio pro peito.

O médico do convênio nunca mais teve notícias de nós duas. Não voltei nem pra agradecer pelos meses de consultas meio afobadas e atrasadas.

Ingrata.

Nem voltei pra dizer pra ele que, naquele dia, entrei no consultório rindo da piada ótima que fizemos enquanto descíamos a rua. E saí do consultório chorando, com medo de que minha bebê estivesse sofrendo na barriga.

Nem voltei pra dizer pra ele que, depois da última conversa, falei com mais 4 médicos e nenhum deles me disse que a diminuição do líquido amniótico era crítica. Pelo contrário: era o esperado, já que eu estava na última semana de gestação.

Também nem voltei pra dizer que a minha bebê nasceu saudável e que não me anestesiaram pra parir. Foi na raça, caras. E eu não morri. E ainda vou dizer uma coisa aqui pra vocês: sou totalmente a favor do parto normal e fiquei muito feliz de saber que o governo adotará medidas para coibir a cesariana entre pacientes de convênios médicos. Demorou, mas antes tarde do que nunca.

Pra você, que é gestante e não quer sofrer para dar à luz, vou dizer outra coisa: o aprendizado de lidar com a dor, por essa motivação, é muito importante.

Aceitar, parar de brigar, lidar com a natureza dos fatos. Existe uma criança que cresceu no seu ventre e precisa sair de alguma maneira. No meu caso, que bom que não houve corte, que ninguém colocou uma pinça de ferro na minha barriga e puxou minha criança pelo crânio. Que bom que a minha filha estava envolvida no parto dela, que o coração dela acelerou e deu tempo de ela perceber o que estava acontecendo. Que bom que ela veio pra mim imediatamente e mamou. Que bom que ela mama até hoje, com mais de um ano de idade.

Nós, seres humanos de uma maneira geral, nos afastamos muito da natureza. Em algum momento da civilização adotamos uma postura de desdém, como se a natureza fosse a Amazônia ou o deserto ou o animal selvagem. Como se o leite brotasse na prateleira do mercado e o frango fosse uma criatura asséptica e pálida, concebida à vácuo e sem o pecado original.

O parto é a reconciliação: nós também somos natureza. Parir é uma experiência radical de retorno à natureza. Um parto não é plástico, não é asséptico. Tem sangue, urina, fezes, líquidos, placenta, criança, cheiro de corpo, suor, pêlos. É isso. Passamos a vida disfarçando a natureza do que somos com desodorantes, depilações, roupas que nos cubram o que nos desfavorece, maneiras de minimizar as nossas imperfeições.

É muito libertador poder se aceitar naturalmente em algum momento. Então que seja nesse. Não importa como você escolhe se apresentar no dia a dia, se você gosta muito de acessórios, se sabe usar a moda a seu favor e harmonizar a fragrância com a ocasião. É importante que você saiba quem você é, do que se trata ser um ser humano.

Já que estamos parindo e vamos lidar com melecas diversas nos próximos anos de vida da criança (xixi, cocô, vômito, catarro, ranho, cera, comida pisada, lixo virado, geleca cósmica de brinquedo), é bom começar pelo começo: aceitando, assumindo a responsabilidade, fincando os pés na terra, na dor, na superação, no exercício do abandono do controle, na exposição, no amor.

Ouso sugerir, inclusive, que os maiores dilemas humanos ocorrem por um problema de responsabilidade. Não nos responsabilizamos por nada do que fazemos diariamente. O maior exemplo disso está na alimentação. Comemos a carne de animais que não vimos morrer. Por isso, perdemos o contato moral com o animal, a participação na sua vida e o contato estético com a sua morte. Se você tivesse que matar o animal para comer, comeria? E, se sim, comeria na mesma frequência e quantidade?

Provavelmente o contato, a noção de responsabilidade, afetaria o hábito. Transformamos tudo em pele sem sangue. A plasticidade do alimento, do lixo, do sexo, da imagem, do afeto, da morte e do nascimento.

Daí entramos em parafuso e não sabemos porquê.

Que estranho, né?

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Camila Caringe é muito mãe, bastante jornalista e consideravelmente afeita a queijo gouda, na respectiva ordem de importância.

Terror induzido

Nunca fui fã. Por essas e por outras fui acusada diversas vezes de ser careta.
Não vou ficar aqui listando minhas incontáveis escolhas que não poderiam ser chamadas de “conservadoras”. Vou me ater a um dado essencial em minha defesa: aos oito anos de idade fui flagrada lendo Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída. Deram sumiço na época, li inteiro com mais de 18.

Leitura muito mais nociva e que ninguém se deu conta antes de começar a avançar os sintomas da demência precoce foi Horror em Amityville, aos 12. O livro era escrito em forma de diário pelo padre que acompanhou a decadência espiritual da família assediada por entidades do mais puro e tenebroso mal. Trazia foto do casal, planta da casa, desenhos da caçula de três irmãos que dizia ter um amigo invisível que lhe aparecia em forma de porco.

A história me deixou tão neurótica que comecei a andar pela casa com as costas grudadas na parede, com medo de estar sendo seguida. Da porta do quarto saltava em pânico para cima da cama, com medo de um espírito segurar o meu pé. Tinha pesadelos. Ligava o rádio, a televisão e todas as luzes da casa às 6h da manhã, enquanto me arrumava para ir à escola. Não suportava a incerteza de estar sozinha na sensação de estar eventualmente acompanhada. Outra leitura censurada que fui encontrar em um cesto abandonado no alto de um guarda-roupas anos depois.

Não sei como foi que aconteceu exatamente. Em algum momento deixei de ser besta. Mas veja, não deixei de ser crédula. O que era apavorante, continua sendo. Apenas não me submeto mais ao terror. Dispenso filmes e livros em que seres humanos de bem precisam convencer o diabo encarnado a deixar livres suas próprias almas. Sabe? Eu não sou obrigada. Agora, o que me causa verdadeiro espanto, juro, são os parques de diversão.

Que noção é essa de diversão? Você paga, PAGA, para ser preso, elevado, sacudido, virado de cabeça para baixo, arremessado, girado e, não raro, ter seu sistema neurológico separado do sistema circulatório por força centrífuga em um brinquedo (?) que fará você ter experiências de quase-morte e, com sorte (?), só vomitar. Um pouco mais previsível é que você sai do parque muito mais estressado do que se tivesse encarado um trânsito de 3 horas para ir, 3 horas para voltar de um trabalho dinâmico e enérgico, como tirar o pai da forca, por exemplo.

Esse tipo de coisa só pode acontecer em uma sociedade que 1) está tão entediada que precisa sentir a morte para sentir a vida ou 2) está tão competitiva que precisa desafiar a morte, a vida, o universo, o pai, a mãe, o brinquedo e o colega na fila. Seria desagradável entrar em detalhes, então não vou dizer qual das minhas irmãs entrou em uma montanha russa sadia e saiu histérica, tendo um ataque intenso de choro e riso ao mesmo tempo. Eu, particularmente, lembro-me do enorme equívoco que cometi ao me deixar prender em uma daquelas estruturas metálicas em torre, donde se vê a cidade lá embaixo, pequena e insignificante. O banquinho parou lá em cima e, por alguns segundos, considerei quais outros meios eu teria para conseguir sair de lá evitando a queda-livre.

Antes da conclusão, veio a queda-livre. A sensação é meio como levar um soco no estômago. Parei de respirar, enxergar e ouvir. Nenhum prazer antes, durante ou depois da queda. Sentir o chão sob os pés novamente soou assim como um privilégio do qual se goza por merecimento após o ritual de iniciação: quem sobreviver sem demonstrar dor de caganeira pode voltar a caminhar por aí de cabeça erguida, como se não tivesse dor de caganeira. Esse é o prêmio. Até que, um belo dia, a pessoa deixa de ser besta.

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Camila Caringe é muito mãe, bastante jornalista e consideravelmente afeita a queijo gouda, na respectiva ordem de importância.

Da série: profissões inestimáveis

Quando bateu à porta do investigador de polícia, sentiu que fazia algo errado duas vezes. Primeiro porque batia com a mão esquerda, já que a direita estava enfaixada. Segundo porque sentia o tipo de culpa que sente todo aquele que trai e segue inevitável a rota dos traíras. Ela traía.
Bateu de novo. Lá de dentro escapava escuro e silêncio.
Cogitava retroceder quando a porta abriu de repente.
Um senhor gordo e calvo perguntou o que ela queria.
Parecia óbvio que queria falar com ele. Era o departamento de investigação de um hospital e uma mulher machucada procurava o investigador durante a madrugada com um papel em mãos, registro da alegação de violência doméstica.

__ Quero falar.
__ Senta.

Na pequena salinha a luz se acendeu. Uma caminha estreita fazia teto para uma mala que tinha jeitão de prestar serviços a um investigador muito sério. A televisão ligada no mudo e uma portinha pro banheiro.
Sentou onde ele indicara e deu tempo de notar uma pequena aranha se esgueirando entre as letras enroscadas na teia da máquina de escrever sobre a mesa. Ao lado, um telefone analógico preto, daqueles com um grande disco na frente e seus números entre as bolinhas.
Ele olhou pra ela com cara de muito sono.

__ Deixa ver seu papel.

Ela estendeu.
Estava feito. O investigador perguntaria os detalhes e ela mal conseguiria relatar os anos em que vivera subjugada pela violência psicológica, moral e física a que esteve submetida, culminando naquele chute na mão direita.

__ Vou carimbar aqui e assinar. Vá amanhã a uma delegacia da mulher.
__ Só isso?
__ Sim. O que mais você quer?
__ …
__ Quer o endereço? Eu posso ver pra você.

Pegou o aparelho e começou a buscar os números no disco.
Deu tempo de reparar no mural das circulares na parede atrás dele. Uma mensagem com a imagem de um grande sol dizendo “¡Buenos días ya viene el sol!”, uma escala de plantonistas, o calendário do mês e o maior e mais imponente alerta:

Art. 331 do Código Penal – Decreto Lei 2848/40
Desacatar funcionário público no exercício da função ou em razão dela
Pena: detenção de seis meses a dois anos ou multa.

Ela imaginou quantos acessos de desenfreada fúria aquele aviso extravagante teria inibido.
Ele desligou o telefone, anotou o endereço e despachou mais uma vítima.

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Camila Caringe é muito mãe, bastante jornalista e consideravelmente afeita a queijo gouda, na respectiva ordem de importância.

Levy e Lévinas – a ética dos aparelhos

Sempre me surpreendo com o avanço do debate político sobre questões religiosas, mas entendo que a moralidade e a cultura de uma pessoa eventualmente vazem para posicionamentos adotados na vida pública. Faz parte. Um ser humano é complexo de pai e mãe. A fuga de uma ideologia dá em outra. Agora, utilizar o “aparelho” público para regular a vida sexual alheia é uma postura que continuamente me escandaliza.

O candidato à presidência Levy Fidelix não está obrigado, claro, a utilizar seu “aparelho excretor” para nada mais além de sua serventia como aparelho excretor, mesmo. E devemos respeitá-lo nessa atitude. Mas é uma lástima que tenhamos de lembrá-lo que cada um cuida de suas “aparelhagens” como deseja e também merece respeito em sua atitude. Essa é uma questão humana, antes de ser política ou religiosa. Humana. Mas também filosófica.

Para o filósofo lituano Emmanuel Lévinas, por exemplo, a animosidade entre indivíduos seria facilmente diluída se cada uma das partes privilegiasse sua alteridade, abrindo mão do poder em prol de uma ligação orgânica que iria além da sociabilidade legítima, por meio do que ele chamou de “socialidade”, orientada de maneira a considerar a significação moral do outro.

Levy não compreende o sexo entre duas pessoas do mesmo gênero, mas entendimento não é prerrogativa da relação ética para Lévinas. Muito ao contrario, o outro jamais pode ser objeto de conhecimento. Primeiro porque o outro não é objeto. Segundo porque suas motivações serão sempre misteriosas e uma relação não pode depender de esclarecimentos para ser ética. A causa da ação é um segredo, uma coisa íntima que nunca pode ser descrita: é a sua liberdade. Se assumimos que um individuo é livre, precisamos admitir a contingência de seus atos. Inclui-se aí a heterossexualidade do candidato. Por que não?

Bem, se eu não posso conhecer o outro, devo então aceitá-lo em meu desconhecimento, tratá-lo a partir disto: a prioridade é ele. Ao abrir mão de seu posto soberano, o mesmo deve depor-se, sair de si, rebaixar-se. Isto é ética: a subordinação do mesmo ao outro. O que importa é a relação que eu tenho com o outro, independente da relação que o outro tenha comigo. Isto porque a ética não implica em reciprocidade. O que eu faço pelo outro é o que me constitui moralmente. A presença ética do outro é mais importante do que a minha existência. O que me faz sujeito é ser para o outro, sem esperar retorno. Eu devo corresponder à expressão do outro com amor, não com conhecimento.

Em si mesmo o sujeito só encontra a pobreza e o vazio. Mais do que isso só pode ser encontrado no contato com o outro – e dessa miséria nem um presidente escapa. O eu, na sua relação consigo mesmo, sempre estará em crise. Para superá-la é essencial encontrar a alteridade. Como o outro nunca poderá ser inteiramente desvendado, conhecido, sua descoberta e presença será sempre traumática. No entanto, Lévinas nos pergunta: se víssemos a humanidade no próximo, se não tratássemos o corpo do outro como “aparelho”, seríamos capazes de atentar contra ele?

Camila Caringe é muito mãe, bastante jornalista e consideravelmente afeita a queijo gouda, na respectiva ordem de importância.