até estourar

Um dorso muito magro e preto, um tronco esturricado. Procurei o umbigo e não achei enquanto ele repetia que sua mãe é puta. “Ela é puta pra caralho”, falava, a espalhar um código de empatia entre as moças de cheiro doce. Tinha um orgulho. E não era um orgulho discreto, não. Um pudor qualquer me fez perguntar entre dentes: “Tua mãe é puta, é?” “Puta pra caralho.” E seu sorriso rasgou a cara. Os dentes encavalados saltaram. “E a mãe da minha filha também. Também é puta.” Aí ele quis saber: “Você é cria da onde?” E eu só pensei que esse mundo é de verdade filho da puta: “Eu sou cria daqui também, irmão.” O rapaz, vulgo Gigi, nome Uélison, assentiu satisfeito e deixou os olhos pousados na moldura vermelha-laranja-brilhante que era o mundo àquela hora. O mundo éramos nós, ali sentados no tronco de uma árvore deitada no calçadão, a aproximar nossas violências, enquanto a luz cresceu e cresceu até estourar sobre nossas cabeças.

Por Silvia Ribeiro

troche

Obra de Troche

um instante

O emaranhado perfeitamente organizado no topo da cabeça tinha a forma de um túnel do tempo psicodélico. Meus olhos eram o céu e sua cabeça, um ciclone a tragar toda a atenção. Os fios se dividiam em camadas branca, cinza e de uma tinta castanha, que insistia em permanecer. Por longos segundos, me deixei a examinar o penteado sustentado por grampos — o caos e a ordem, alheios à beleza e ainda assim belos. A espiral a compor redemoinho e a desafiar o tempo, quando, num solavanco, o metrô abriu as portas e a cabeça correu, a garantir um assento na volta para casa.

Por Silvia Ribeiro

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Fotografia: Henri Cartier-Bresson

 

Perda de pares

Ela perdeu os dois. Seus dois pares. E descalça foi barrada na porta da festa. Espiou os pés pelados, colados ao chão. Estava mesmo presa à condição dos sem sapatos, que de dois se desdobraram em nenhum. Eram dois saltos altos, mas outros nomes poderiam sem prejuízo se encaixar ante o numeral dois. Impiedosa, a perda — de quem ou o que fosse — desafiava: “Não vai entrar”. Qual uma Cinderela às avessas, voltou onde os havia deixado. E os dois tinham sido surrupiados por uma estrangeira, que também desaparecera. Chegou a questionar se realmente o par existira. Os sapatos saíam de cena na hora em que se desdobrava em mais de uma mulher a cavucarem em si o que de fato se perdia. Não era mais ela, mas elas. E, descarnando, sentiu que em seu corpo uno de mulher cabiam sim vontades tantas— inclusive aquela, de ir à festa descalça.

Por Silvia Ribeiro

Simone de Beauvoir em foto de de Art Shay

Simone de Beauvoir em foto de de Art Shay

O par inventado

Henri Cartier-Bresson

                                                                                                                                     Crédito: Henri Cartier-Bresson

— Se não tens nada a oferecer, como posso eu querer alguma coisa de ti?
— Eu nunca fui falso com você.
— E quando as coisas entraram nos trilhos do falso ou verdadeiro?
— (…)
— Eu tenho uma revelação…
— Boa noite.
— … eu inventei você.
— Já está tarde, tá na hora de a gente dormir.
— Eu já estou dormindo.
— E eu era como? Me diz como eu era nessa tua invenção.
— Não tinha você, só tinha eu. Só lembro que éramos um par e eu me satisfazia…
— Não vai dizer?
— O enredo não importa, não tenho criatividade para ficções… Mas meu corpo sorria, uma bola dourada saltava do meu peito e você era um espelho.
— E o que eu refletia?
— Eu me satisfazia em você.
— Como?
— Eram dois espelhos: o de cima da cama onde eu via suas costas, você metendo em mim…
— (…)
— … e o do lado da cama, em que eu via o vai e vem do teu corpo metendo em mim.
— Me conta cá uma coisa: quando foi que você saltou dos trilhos da realidade para a fantasia?
— Quando ouvia um baixo de duas cordas.
— Morphine?
— É. Cada corda era um trilho, soava em pares. Mas não consegui tirar uma foto dessa hora. Teus olhos estavam voltados para dentro e só havia meu desejo.
— Boa noite?
Por Silvia Ribeiro

Sobre chaves e travessias

— E como quisesse perder-se de si, esqueceu a chave de casa na areia da praia.

— Talvez não fosse a de casa, mas a do carro com que atravessava ruas… Mas se perdeu mesmo?

— Ele ou a chave?

— Os dois.

— (…) Digamos que se perderam, só por um lapso de tempo.

— Mas se era noite e havia festa de gentes, violões e gritos, como puderam se encontrar?

— Foram as crianças que logo avistaram.

— Avistaram o que?

— Que ali na areia se perdiam: ele e a chave.

— As crianças acharam a chave?

— O pai de uma delas correu até ele e perguntou: ‘Você estava lá atrás?’ (…)

— Uma pergunta um pouco vaga a julgar que havia gentes…

— (…) Ao que ele respondeu meio incrédulo que sim, que estivera ali atrás.

— E foi nesse instante que ele se desperdeu?

— Quase, quase. ‘Essa chave é sua?’, disse o pai balançando o chaveiro diante de seu rosto, tal um
mágico ilusionista que tirou um objeto do espectador e dele recebe um olhar de surpresa e
maravilha. Ele apalpou os bolsos com vigor. ‘Sim, é minha essa chave’.

Por Silvia Ribeiro

Inconsciência PB

Lamento e agradeço meus olhos por verem.

Um homem de cabelos brancos dá uma bica na cara de um negro.

Não vejo o pé atingir o rosto, mas o depois: o rapaz a passar a mão na bochecha, como a compensar a dor do chute; homens e mulheres a se juntar e a comentar a meia voz: “Deve ter roubado o velho”.

De pernas abertas, sentado na plataforma do trem, o negro veste tênis laranja fluorescente, a cintilar tanto quanto o sol da manhã. O idoso sobe as escadas, escoltado por funcionários da estação.

Acabada a ação, alguém sussurra para mim algo entre dentes, como a buscar cumplicidade.

A rodinha se desfaz. É hora da mais valia.

http://vriemia.luxartsans.com.br/relaxe.html

 

Por Silvia Ribeiro

o tigre e a cobra do atari

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Sonhei que um tigre surgiu na casa em que eu então morava.

A primeira vez que o vi, ele estava sobre a pia da cozinha e tinha a cor verde, por estar em descongelamento. Mamãe descongelava carne para o jantar quando o animal ganhou vida e passou a circular pela casa.

Fiquei apavorada – desconhecia o limite do seu selvagem – e fechei o bicho num pequeno quarto sem tranca, na parte dos fundos (a casa era um misto de onde moro hoje e das casas da minha infância).

O tigre podia se soltar a qualquer momento. E foi o que aconteceu.

Com medo, propus à minha mãe chamarmos o zoológico para recolhê-lo. Ela rejeitou a ideia, entre irritada e sem interesse.

Escapuliu do quarto sem tranca e surgiu sobre o sofá, aninhado com a gata Chica. Depois fui encontrá-lo entre o sofá e a parede, no túnel em que percorria, de gatinho, quando criança.

Consegui de novo deter o animal. Desta vez, no banheiro. Era o banheiro branco da casa de minhas tias. Mas meu pai foi usá-lo e, em sua embriaguez, soltou o tigre.

Por tempos seguidos, sonhei com uma cobra preta — tinha o aspecto de uma minhoca roliça de pele brilhante — fechada na caixa de madeira do Atari. O bicho ficou por anos no mesmo quarto dos fundos, uma espécie de dispensa da casa (seria meu inconsciente?), e não me deixava esquecê-lo.

Eu sabia que precisava abrir a caixa. Não o fazia e era tomada por culpa e aflição ante o que encontraria ali. Algo morto ou vivo, composto ou decomposto.

Esses animais são o sem controle que habita em mim.

Nunca abri a caixa. A cobra desapareceu dos meus sonhos.

O tigre passou a circular livremente em casa. Sobe na geladeira – o pico mais alto – e me espia em silêncio.

 

Por Silvia Ribeiro