A gente se esforça demais

fazendinha

É o que eu fui reparando, a tensão do que é certo censurando o importante. Nisso eu pensei naquela tarde de festa junina na fazenda, quando ouvi a voz das crianças atrás de mim. Entrei com a minha filha no colo na casinha de pau a pique de cuja entrada pendia a plaquinha indicando “casa de pau a pique”. O fogão à lenha, a mesa de madeira, uma pequena máquina de costura e um segundo cômodo com uma cama de colchão de palha. Janelas e porta eram apenas seu contorno sem paradas. E o telhado.

Enquanto eu posicionava a pequenininha para fazer a foto, uma outra mãe entrou com suas duas crianças um pouco mais velhas. As crianças pareciam encantadas, mas a mãe estava entediada, olhou ao redor e abandonou a casa. Coloquei a bebê de pé nos joelhos para que ela alcançasse a vista e ouvi às minhas costas enquanto as crianças deitavam na cama e se cobriam com a palha muito entusiasmadas. O menino disse para a menina:

__ Queria que a minha casa fosse assim. Não. Queria morar aqui. Queria morar em um lugar como esse. Ou… pelo menos ter um lugar como esse pertinho, para eu ir sempre que eu quiser. Eu queria poder vir aqui todos os dias e ficar aqui.

Olhei para trás só pra ver o tom confidente entre os dois. Um tapa na cara das Peppas importadas, dos tablets infantis, dos carros que viram robôs, das bonecas que viram princesas sereias fadas voadoras. Imediatamente me ocorreu aquele dia das mães na escola. Pediram para as mamães prepararem com suas crianças um prato para o piquenique. Preparamos sanduichinhos de pão australiano com legumes crus ralados. Abri os pãezinhos e ela foi jogando os legumes lá, fazendo montinhos coloridos do jeito dela, toda contente e delicada com a comida.

Na hora do piquenique, a professora pediu para cada mamãe falar sobre o prato que fez e contar a experiência. Uma a uma as mamães foram explicando:

__ Ah, minha filha é muito nova, então eu mesma fiz.
__ Não tive tempo, vou confessar. Comprei.
__ Esperei ele dormir e fiz sozinha, pra não fazer bagunça.
__ Eu estava trabalhando, não trouxemos.

Chegando a minha vez, fiquei constrangida.
Sobre “ter tudo”, eu fico com a versão das crianças.

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Camila Caringe é muito mãe, bastante jornalista e consideravelmente afeita a queijo gouda, na respectiva ordem de importância.

Mãe até debaixo d’água… e dentro do cinema

Eles aprendem rápido.

Minha filha, por exemplo, sacou logo que tem duas mãos, dois braços, dois pés, duas pernas, dois olhos, um nariz, uma boca e uma mãe, caso qualquer coisa falhe. Nos primeiros meses de vida, a mãe e o bebê funcionam como uma pessoa só, principalmente se a amamentação é natural. A dependência é extrema e o bebê passa o tempo todo solicitando atenção materna. A vida da mãe, portanto, fica reduzida ao mais básico das necessidades básicas. Banhos só de vez em quando e muito rápidos, xixi da manhã só no fim do dia, refeições são ocorrências eventuais com algo que se possa buscar na cozinha e não exija preparo de nenhuma espécie, maquiagem, perfume e hidratante nem pensar, depilação, manicure, cabeleireiro só se for com o bebê no colo e vida social… Ãhn?

Foi pensando nisso que um grupo de mães com saudades da vida cultural criou a Associação CineMaterna que, sem fins lucrativos, organiza sessões especiais de cinema por todo o Brasil, para acolher mães com seus bebês de até 18 meses. A temática dos filmes exibidos é bastante variada*, indo de desenhos até conteúdos adultos que podem entreter mamães e papais. Mas, invariavelmente, a sala é preparada para receber as crianças. O som da exibição é mais baixo, ar condicionado suave, luzes tênues acesas, trocador equipado disponível (com fraldas e produtos de higiene), tapete colorido para crianças que engatinham e uma equipe feminina muito atenta e gentil, auxiliando com a acomodação e o transporte de acessórios (cadeirinhas, malas, objetos pessoais).

A ideia é não somente viabilizar a experiência do cinema às mães com crianças pequenas, como também promover encontros para dialogar sobre os prazeres e dilemas da maternidade. As participantes são sempre convidadas para um bate-papo que acontece após a sessão, em um local próximo à sala de exibição do filme, algumas vezes com a presença de profissionais da área da saúde feminina ou pediátrica e a divulgação de eventos como a Hora do Mamaço. O projeto começou em 2008 e já está em 34 cidades, disponibilizando 68 salas de cinema pelo País.

Quando fui pela primeira vez, esperava encontrar uma sessão quase vazia, com meia dúzia de mães com seus bebezinhos de peito quietinhos e sonolentos. Que nada! A sala enche, a procura é grande e a sinfonia é geral. Choro, tosse, gritinhos, cantoria repetitiva. O bom é que rola um clima de solidariedade coletiva, uma irmandade maternal. Um minuto é o filho da outra. No minuto seguinte é o seu. E vale tudo: dar de mamar, ficar de pé e circular pelas laterais ou fundos da sala, colocar para engatinhar e interagir com outras crianças, trocar a fraldinha suja, deixar viver. Mas não muito! Vi mãe desesperada correr atrás do bebê perdido, que foi engatinhando entre as poltronas até ficar fora de alcance. Daí a idade limite de 18 meses. Quanto mais esperto for o pequenino, maior a vontade de se movimentar e explorar o ambiente, mais impaciente fica e mais difícil para a mamãe conseguir controlar o ímpeto infantil. Fica, portanto, quase impossível prestar atenção ao filme.

A ideia e o trabalho da equipe são excelentes. Em algumas exibições é oferecida entrada gratuita para as primeiras 20 pessoas ou é possível conseguir ingressos com voucher distribuídos em ambientes de circulação de mamães. Há sempre uma fotógrafa de plantão para registrar as sessões e os produtos disponíveis são de marcas conhecidas. O inconveniente é que, eventualmente, alguém pode, discretamente, colocar um produto pertinho, para que saia na foto em primeiro plano enquanto você troca a fralda do seu bebê desavisadamente. No meu caso, não liguei, porque a marca é a que eu uso mesmo. Mas, caso não concorde com a exploração da imagem pelos patrocinadores, acredito que não haja problemas em negar a exposição.

Confira a programação no site e boa sessão!

Serviço

* Filmes de terror e violência explícita ficam de fora da programação

Clique aqui para conferir a agenda do CineMaterna.

CineMaterna – Porto Alegre 17.08.2013 from LAMINANOVA on Vimeo.