O par inventado

Henri Cartier-Bresson

                                                                                                                                     Crédito: Henri Cartier-Bresson

— Se não tens nada a oferecer, como posso eu querer alguma coisa de ti?
— Eu nunca fui falso com você.
— E quando as coisas entraram nos trilhos do falso ou verdadeiro?
— (…)
— Eu tenho uma revelação…
— Boa noite.
— … eu inventei você.
— Já está tarde, tá na hora de a gente dormir.
— Eu já estou dormindo.
— E eu era como? Me diz como eu era nessa tua invenção.
— Não tinha você, só tinha eu. Só lembro que éramos um par e eu me satisfazia…
— Não vai dizer?
— O enredo não importa, não tenho criatividade para ficções… Mas meu corpo sorria, uma bola dourada saltava do meu peito e você era um espelho.
— E o que eu refletia?
— Eu me satisfazia em você.
— Como?
— Eram dois espelhos: o de cima da cama onde eu via suas costas, você metendo em mim…
— (…)
— … e o do lado da cama, em que eu via o vai e vem do teu corpo metendo em mim.
— Me conta cá uma coisa: quando foi que você saltou dos trilhos da realidade para a fantasia?
— Quando ouvia um baixo de duas cordas.
— Morphine?
— É. Cada corda era um trilho, soava em pares. Mas não consegui tirar uma foto dessa hora. Teus olhos estavam voltados para dentro e só havia meu desejo.
— Boa noite?
Por Silvia Ribeiro
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Pó de 10

O homem barrigudo, chinelo de dedo, bigode preto, percebeu meu interesse pelo cão e ficou me encarando. Ele apoiava as mãos no guidão de uma bicicleta, com um riso malicioso.

Eu que tirava fotos do bicho.

Animal de cor esquisita, olhos de cabra injetados, pelo manchado, batido, aspecto descarnado.

Estava na Pedra do Sal, próximo ao Cais do Valongo, região portuária do Rio, que, há pouco mais de 100 anos, fora porta de entrada de mais de 500 mil africanos.

— Esse cachorro é seu? Como chama?

— Pó de 10.

— Pode 10? Pode o que?

— Não. Pó de 10 mesmo.

— Pó de cocaína?

— É… – e ficou me espiando, como se eu desafiasse a verdade e fosse perder.

— Mas por que ele se chama Pó de 10?

— O dono dele chamava ele assim. Ele era traficante, tá trancado faz pouco mais de um
mês… O cachorro ficou.

— O senhor tá brincando comigo…

— ÔÔÔÔ PÓ DE DEEEEEZ!!!!

E o cachorro desembestou a correr na direção de tão singela convocatória.

Gosto de a realidade não carecer de elementos verossímeis. Ela se banca e esfrega na cara o que seria facilmente taxado de mera invencionice. Já a ficção, essa sim, precisa acercar-se de mais “cacos do real” do que a própria realidade.