Inconsciência PB

Lamento e agradeço meus olhos por verem.

Um homem de cabelos brancos dá uma bica na cara de um negro.

Não vejo o pé atingir o rosto, mas o depois: o rapaz a passar a mão na bochecha, como a compensar a dor do chute; homens e mulheres a se juntar e a comentar a meia voz: “Deve ter roubado o velho”.

De pernas abertas, sentado na plataforma do trem, o negro veste tênis laranja fluorescente, a cintilar tanto quanto o sol da manhã. O idoso sobe as escadas, escoltado por funcionários da estação.

Acabada a ação, alguém sussurra para mim algo entre dentes, como a buscar cumplicidade.

A rodinha se desfaz. É hora da mais valia.

http://vriemia.luxartsans.com.br/relaxe.html

 

Por Silvia Ribeiro

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Só um racismozinho sem querer

Da primeira vez em que assisti ao filme, já gostei. Depois, considerei: “mas será que não estamos sendo ambas muito radicais? Essa terapia de choque… não sei…” Ainda assim, não consegui retroceder. Na condução, Jane parecia um pouco sádica. Mas na intenção não.

O último episódio envolvendo atitudes racistas no futebol brasileiro me fizeram lembrar da conversa ligeira que tive com ela por e-mail, há algumas semanas. Jane Elliot, uma professora de Riceville, Iowa, nordeste dos Estados Unidos, conduziu uma experiência muito realista, forçando empatia entre seus alunos de nove anos de idade, desfavorecendo-os alternadamente por suas características físicas, simulando posturas racistas, homofóbicas ou discriminatórias típicas da sociedade estadunidense.

O filme a que me refiro se chama Blue Eyed, mas existem muitos registros sobre as palestras que ela ainda ministra nos dias de hoje, utilizando sempre o mesmo método de empatia radical que utilizou pela primeira vez em 1968, em ocasião do assassinato de Martin Luther King. “Eu dava aula na terceira série em uma comunidade branca cristã. Tinha de explicar a morte dele para os meus alunos. Não sabia como fazê-lo, a não ser fazendo com que se sentissem na pele de um negro por um dia.”

Quando a notícia sobre o exercício Blue Eyes/Brown Eyes se espalhou, Jane e sua família passaram a receber represálias diversas. “Meus filhos apanharam e receberam cusparadas. Meus pais perderam seu negócio. Meu pai morreu totalmente isolado na comunidade que seu bisavô ajudou a fundar, porque havia criado a amante de negros da cidade.”

Mas… o exercício foi criado em 1968, três anos após a queda do apartheid legal nos EUA. Agora talvez pareça um pouco deslocado. Quero dizer, o país elegeu um presidente negro. Correto, Jane? “A eleição do nosso primeiro presidente negro poderia ter inaugurado uma era de igualdade e justiça. Em vez disso, ela deu início a anos de resistência por parte de pessoas brancas sobre a ideia de que um negro poderia, seria ou deveria estar em uma posição de tal autoridade. Obama foi eleito não porque a população branca ficou impressionada com sua inteligência e filosofia, mas porque ele foi um organizador comunitário absolutamente brilhante.”

Bem, eu nasci brasileira. E posso dizer que aqui, no País do Futebol, onde 52,3% da população se declara parda ou negra, de acordo com o último Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2010, IBGE), ainda acontece de, “no calor do jogo, no impulso”, uma funcionaria da Brigada Militar de Porto Alegre disparar ofensas racistas contra um jogador do time adversário. Mas isso foi semana passada. Já faz tempo. Vamos pegar um fato mais recente. Esta semana o galpão do Centro de Tradições Gaúchas (CTG) Sentinelas do Planalto foi atingido por um incêndio criminoso. O motivo? Uma cerimônia de casamento coletivo incluindo um casal homossexual.

Jane Elliot começou o seu trabalho depois de ler Mengele e The Nazi Doctors, dois livros que detalham a filosofia e o trabalho de líderes fascistas. “Já aconteceu uma vez e pode acontecer de novo, a não ser que as pessoas leiam essas coisas e percebam que ele (Mengele) não era um monstro. Era um homem fazendo o que achava certo e que tinha o poder para fazê-lo. The Nazi Doctors fala sobre como pessoas inteligentes foram convencidas a cooperar. O mais assustador é saber que foi, na verdade, fácil fazê-los cooperar. A intimidação funciona.”

O professor Rainer Wenger, de Palo Alto, Califórnia, confirmou que isso é possível em 1967. Sua experiência foi adaptada pelo cinema alemão no filme intitulado A Onda (Die Welle, 2008). O envolvimento dos estudantes com o movimento autocrático forjado pelo professor foi tão profundo que a experiência teve sérias consequências. Um aluno chegou a perder a mão enquanto preparava explosivos. O professor foi demitido e proibido de lecionar em escolas públicas.

O psicólogo Philip Zimbardo também conseguiu “transformar homens e mulheres decentes em monstros”, em uma experiência controversa realizada em 1971 com alunos da renomada universidade Stanford. O autor do livro O Efeito Lúcifer – Como Pessoas Boas Se Tornam Más relata sua proposta de simular uma prisão, com carcereiros e aprisionados. Logo constatamos como as equipes se comprometem com sua função no jogo, convertendo-se em autoridades abusivas e cruéis, de um lado, e prisioneiros submissos e apáticos, de outro.

Com isso ele demonstra como todos nós, sujeitos de bem, retamente conduzidos, frequentadores de perus de Natal das festas familiares, estamos sujeitos, mais do que gostaríamos de admitir, a transformações de caráter circunstanciais, influenciados pela moralidade do grupo e pela conveniência sistêmica, o que talvez explique, mas não absolve atitudes tomadas no contexto da identificação coletiva, como a da torcedora brasileira. Zimbardo ressalta a responsabilidade individual por atos imorais, ilegais ou malignos.

Perguntei a Jane se ela já esteve no Brasil ou se gostaria de vir aplicar seu método conosco. Embora não tenhamos em nossa história o racismo institucional após a abolição da escravatura, como vigorou o apartheid nos EUA, parece que padecemos da hipocrisia informal, que curte um axé, um funk ou um rap, mas de longe, sem se misturar. A resposta foi generosa: “Eu adoraria ir ao Brasil, mas pelo valor que a viagem custaria, seria mais interessante veicular meus DVD’s, já que pela TV a mensagem atingiria muito mais pessoas. Professores selecionados podem ser treinados para fazer o exercício. A resposta para esse problema é sempre a educação.”

Ixi. Segundo os dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), divulgados este mês pelo Ministério da Educação, vamos precisar de sorte. 60% das redes públicas do Brasil estão abaixo da meta nos anos finais do ensino fundamental. Do total de escolas públicas e privadas do ensino médio, 23 Estados (de 26! Confere, produção?) ficaram abaixo da meta. E olha que meta do MEC nunca foi lá muito ambiciosa, hein? Deus (Deus?) nos ajude.