O par inventado

Henri Cartier-Bresson

                                                                                                                                     Crédito: Henri Cartier-Bresson

— Se não tens nada a oferecer, como posso eu querer alguma coisa de ti?
— Eu nunca fui falso com você.
— E quando as coisas entraram nos trilhos do falso ou verdadeiro?
— (…)
— Eu tenho uma revelação…
— Boa noite.
— … eu inventei você.
— Já está tarde, tá na hora de a gente dormir.
— Eu já estou dormindo.
— E eu era como? Me diz como eu era nessa tua invenção.
— Não tinha você, só tinha eu. Só lembro que éramos um par e eu me satisfazia…
— Não vai dizer?
— O enredo não importa, não tenho criatividade para ficções… Mas meu corpo sorria, uma bola dourada saltava do meu peito e você era um espelho.
— E o que eu refletia?
— Eu me satisfazia em você.
— Como?
— Eram dois espelhos: o de cima da cama onde eu via suas costas, você metendo em mim…
— (…)
— … e o do lado da cama, em que eu via o vai e vem do teu corpo metendo em mim.
— Me conta cá uma coisa: quando foi que você saltou dos trilhos da realidade para a fantasia?
— Quando ouvia um baixo de duas cordas.
— Morphine?
— É. Cada corda era um trilho, soava em pares. Mas não consegui tirar uma foto dessa hora. Teus olhos estavam voltados para dentro e só havia meu desejo.
— Boa noite?
Por Silvia Ribeiro
Anúncios

o tigre e a cobra do atari

escher2

Sonhei que um tigre surgiu na casa em que eu então morava.

A primeira vez que o vi, ele estava sobre a pia da cozinha e tinha a cor verde, por estar em descongelamento. Mamãe descongelava carne para o jantar quando o animal ganhou vida e passou a circular pela casa.

Fiquei apavorada – desconhecia o limite do seu selvagem – e fechei o bicho num pequeno quarto sem tranca, na parte dos fundos (a casa era um misto de onde moro hoje e das casas da minha infância).

O tigre podia se soltar a qualquer momento. E foi o que aconteceu.

Com medo, propus à minha mãe chamarmos o zoológico para recolhê-lo. Ela rejeitou a ideia, entre irritada e sem interesse.

Escapuliu do quarto sem tranca e surgiu sobre o sofá, aninhado com a gata Chica. Depois fui encontrá-lo entre o sofá e a parede, no túnel em que percorria, de gatinho, quando criança.

Consegui de novo deter o animal. Desta vez, no banheiro. Era o banheiro branco da casa de minhas tias. Mas meu pai foi usá-lo e, em sua embriaguez, soltou o tigre.

Por tempos seguidos, sonhei com uma cobra preta — tinha o aspecto de uma minhoca roliça de pele brilhante — fechada na caixa de madeira do Atari. O bicho ficou por anos no mesmo quarto dos fundos, uma espécie de dispensa da casa (seria meu inconsciente?), e não me deixava esquecê-lo.

Eu sabia que precisava abrir a caixa. Não o fazia e era tomada por culpa e aflição ante o que encontraria ali. Algo morto ou vivo, composto ou decomposto.

Esses animais são o sem controle que habita em mim.

Nunca abri a caixa. A cobra desapareceu dos meus sonhos.

O tigre passou a circular livremente em casa. Sobe na geladeira – o pico mais alto – e me espia em silêncio.

 

Por Silvia Ribeiro